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HISTORINHAS DE INFÂNCIA, NA 'VELHA' CURITIBA: DA NOSSA MÃE (1920-30) E DA NOSSA PRÓPRIA (1950) ! (1)

      Contava a nossa saudosa mãe, que ao tempo do seu ensino primário, final dos anos ’20, Curitiba a leste, ‘terminava’ no rio Belém. Sua mãe, minha avó materna Amantina, morava na atual rua Amintas de Barros, entre Mariano Torres e Dr. Faivre (nas imediações onde existe hoje, um supermercado). Era longe – ‘fora’ cidade ! Até porque a área ainda não era urbanizada e quando chovia, virava um lamaçal, da cor preta.

      (1) Naqueles tempos, só duas crianças iam calçadas para a escola, o atual Colégio Estadual ‘Conselheiro Zacarias’: o futuro Presidente Jânio Quadros, morador da Itupava e a filha do Prefeito de Bocaiúva do Sul da época – que inclusive, era trazida diariamente, de carro. Os demais, iam descalços. E ela contava que tinha inveja dos colegas que vinham de regiões de barro vermelho, enquanto que o dela era preto. Dizia ela também, que para leste, só havia aberta, a rua Itupava, ou a Munhoz da Rocha, dos caminhos de entrada e saída da Cidade. A rua XV, abaixo da atual Ubaldino do Amaral, era uma ‘barroca’, com bastante erosão. Que as crianças a usavam como escorregador.

      (2) Quando caía uma chuva ‘média’, seu tio Artur (mais novo dos irmãos da minha avó), costumava fazer uma pequena represa, próximo de uma das margens do rio Belém, na altura da atual esquina de Mariano Torres com Amintas de Barros e pegava uns peixes ‘a mão’. Algumas vezes, em razão de um eventual estado etílico, ele ‘sossegava’ os peixes mais agitados, matando-os a dentadas ! Depois, ia curtir a sua ressaca, na casa da irmã: ‘Besofen, Manta, besofen !’, dizia ele, quase chorando.

      (3) Esse tio, embora descendente de alemães, participava das arruaças, durante as duas Guerras Mundiais, contra os germânicos que não obedeciam às simulações de ataques aéreos: soavam sirenes e todas as luzes da Cidade deviam ser apagadas. Sempre havia alguns que não atendiam a esse ensaio: nestes casos, grupos de pessoas apedrejavam as casas que não atendiam os avisos. Aos gritos, de ‘Apaga, não apaga ! Acende, não acende’, uma pequena multidão se deslocava, na direção dos considerados ‘alemães impertinentes’ e apedrejavam suas moradias, até que as luzes fossem apagadas.



Categoria: Causos & Coisas
Escrito por W. Pósnik às 13h40
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HISTORINHAS DE INFÂNCIA, NA 'VELHA' CURITIBA: DA NOSSA MÃE (1920-30), E DA NOSSA PRÓPRIA (1950) ! (2)

      (4) Minha avó era natural de Cerro Azul e leitora diária do jornal ‘Diário da Tarde’, do polêmico jornalista Roberto Barrozo. Tinha entre seus hábitos, ir aos cinemas, fazer compras no Centro, freqüentar cafés. ‘leiterias’ ou confeitarias. Mas, constantemente, chovia no ‘vale’ do Belém e a lama preta a ser atravessada nestas ocasiões, não era fácil. Mas, ela não se intimidava: punha seu melhor traje e saía de casa descalça, pelo barro. Ía até a praça Generoso Marques, onde havia uma torneira ‘pública’: lavava e enxugava bem seus pés, colocava os sapatos e seguia em frente, em busca do seu programa favorito.

      (5) Em frente à casa de minha avó, havia uma família numerosa. Mãe viúva e cujo filho mais velho, ajudava a tomar conta da molecada. Aliás, esta ‘figura’ de dublê de pai, décadas depois, notabilizou-se como juiz de futebol, da nossa divisão principal. Contemporâneo de figuras ‘do apito’ como Kalil Karam Filho, José Barbosa de Lima Neto, Tufy Isfer, Orlando Stival, entre outros. Um dos irmãos mais novos do futuro juiz de futebol, tinha o apelido de ‘Daló’; era o mais levado da irmandade; esperto, traquinas, sempre disposto a causar alguma confusão familiar. Era comum, os vizinhos ouvirem algaravias diárias, em torno do Daló. Não poucas vezes, quando a coisa se complicava, ouvia-se a voz firme do irmão, admoestando-o: ‘Daló, pare com isso !’ ‘Daló, seu nego sem vergonha, pare com isso !’ E sempre se ouvia a réplica, algum resmungo do próprio, na tentativa de justificar-se, ou de manter seu ponto de vista ! Ao final, não havendo jeito de nenhum acordo, o irmão mais velho dizia: ‘Daló, vá buscar o couro !’ Coisa que se repetia, várias vezes. ‘Daló, seu nego sem vergonha, vá buscar o couro !’ Com a impaciência do mais velho crescendo e sua voz cada vez mais alterada, o pirralho, acabava desistindo de argumentar. E com a ligeireza de uma lebre, Daló pegava o tal do couro, jogava perto do irmão e saia em disparada, para fora de casa. A vizinhança, alertada pela discussão, assistia à porfia. Ás vezes, o mais velho, alcançava o Daló e o couro, comia solto. Muitas outras vezes, o Daló levava a melhor, fugia exultante. Depois, ‘dava um tempo’ ia se aproximando aos poucos, para saber se o irmão ainda estava em casa ! Se ainda estava com raiva, ou já tinha esquecido tudo. Não poucas vezes, o Daló se deu mal. Achou que o irmão tinha saído e que a mãe estava sozinha. Mas ele estava escondido, sorrateiro, esperando com paciência, a volta do moleque. Aí já viu, a vizinhança de ouvido e olho aguçado, assistia o escândalo completo. 1X 0 para o ‘dublê’ de pai !

      (6) Uma das coisas mais exóticas que havia na casa de minha avó, apelidada de ‘Nona’ por seus vizinhos italianos do Hugo Lange, era o galinheiro. Galinheiro, enquanto espaço dos ‘folguedos’ galináceos, era amplo; ocupava cerca da metade do terreno: mais ou menos uns 14m X 15m. Para umas vinte ‘penosas’ e um galo, criados extensivamente. Tinham liberdade de sair, para o campo e voltar, quando melhor lhes aprouvesse. Volta e meia, uma era sacrificada e posta na caçarola. Se fosse muito velha, tinha que lhe administrar, uma dose de pinga, antes de torcer-lhe o pescoço. Eu muitas vezes, ajudei a pegá-las e eventualmente, sacrificá-las. Algumas eram atropeladas, por ‘charretes’ ou veículos a motor, muito raros, O curioso era o galinheiro, enquanto dormitório, uma enorme árvore, um cedro de algumas décadas de vida. Havia uma escada, de uns 8m, em cerca de 45º. Que as ditas cujas, subiam ao por do sol e passavam a noite empoleiradas, a uns 10-12m de altura. Algumas vezes, à noitinha, alguma caía do galho, com algum estardalhaço, mas sem nenhuma conseqüência. A não ser, que caísse para o lado dos vizinhos italianos, na sua horta. Pela manhã, a descida era tranquila, em pequenos vôos-saltos, degrau a degrau. Tudo então, voltava ao ‘normal’ !



Categoria: Causos & Coisas
Escrito por W. Pósnik às 09h44
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