Blog do Pósnik


VERDADES & FANTASIAS I: NOSSA VOLTA ÀS LIDES DA CULTURA (2002).

      Em meados de 2002, fomos convidados a fazer parte do grupo de pessoas, ligadas ao PMDB, que iria formular e discutir as propostas para a área da Cultura, com vistas a incorporá-las ao ‘Plano de Governo’ do período 2003-06. Reuníamo-nos num casarão da Praça Osório, onde fora anteriormente a Cultura Inglesa e onde estava instalado o ‘Comitê da Mulher’ da Campanha.

      Já na fase inicial das discussões, antes das eleições, ocorriam coisas estranhas, como a existência de outro grupo, instalado em local diverso, ‘tocando’ os mesmos objetivos. Este, intitulado ‘da Classe Artística’ e o primeiro, das ‘Mulheres’, tendo a futura 1ª. Dama como presença constante mas, ligado politicamente ao postulante ao cargo de Vice-Governador.

      Para deixar claro, o espaço marginal ocupado pela Cultura neste e noutros contextos, quando esses dois grupos desencadearam seu trabalho, de início politicamente concorrentes, mas ao final, compostos entre si, as linhas gerais do ‘Plano de Governo’, já estavam ‘fechadas’. Ou seja, para elaborar o ‘Plano’, os responsáveis pela tarefa, não viram necessidade da participação de ninguém da Cultura. Foi por uma ação reativa a esse fato, que os dois grupos se instalaram e aquele, com a presença da futura 1ª. Dama e apoio do então candidato a Vice, acabou aceito formalmente, no grupo e na missão maior do Partido.

Mas, isto são apenas coisas do contexto. O que importa, e que nos interessa expor aqui, é a nosso início de trajetória de 4 anos (começado em meados de 2002), como parte do grupo que assumiu os destinos da SEEC.

      Nossa experiência anterior na área havia sido muito rica, especialmente nos dois últimos anos do período 1991-94, quando iniciamos, o já bastante mencionado, inventário do patrimônio cultural ‘O Paraná da Gente’; com significativa participação de inúmeras comunidades locais, pelo Estado afora. Tal inventário visava sistematizar o núcleo de um processo de resgate da nossa história e memória. Essa participação da sociedade afigurava-se como fundamental, para o resgate de elementos representativos da história local e regional, a discussão ampla da sua representatividade e ao mesmo tempo, pela geração de saldos educativos, que constituir-se-íam nos elementos básicos, nos alicerces de um processo permanente de preservação descentralizada, que estava sendo buscado.

      Ocorre que o inventário só começou a tomar corpo, ao final do período de governo e sua continuidade e complementação, acabou abandonada pela gestão sucessora. Embora nós tenhamos permanecido na área e insistido veementemente na sua continuidade, com desgastes inclusive pessoais, não tínhamos uma relação pessoal ou política consistente, com as pessoas que passaram a estar no comando. Além disso, instalou-se uma ‘briga’ entre duas áreas e respectivos responsáveis, pela continuidade da tarefa. Com isso, deixamos de insistir nesta questão, que também pelo desinteresse dos dirigentes principais, acabou sendo temporariamente ‘arquivada’.

      A possibilidade de retomada dessa utopia transformadora, oito anos depois, nos motivou muito. Como continua a motivar, mesmo hoje, quando estamos definitivamente fora do aparelho-de-estado, por decisão própria. Tudo parecia caminhar para o resgate daquele processo, que foi pontilhado de situações quase que épicas: dezenas e dezenas de pessoas, usando seus próprios recursos, seu tempo livre, para trabalhar voluntariamente no inventário, por indicação das municipalidades. Remetiam seus resultados, sem se desligar da idéia, aguardando e cobrando constantemente, pelos próximos passos.

      Para nós, foi uma utopia que poderia ser reiniciada a qualquer tempo. E que só poderia acontecer na área da Cultura, onde o dia-a-dia de uma autêntica intervenção de política pública, é pontilhado de inovações e ousadias ! Na nossa maneira de ver, essa era a matéria-prima fundamental, por seu potencial mobilizador, capaz de catalizar transformações maiores na sociedade. Talvez, estivéssemos enganados. Mas, e a ‘Pastoral da Criança’ ? Bem, se é possível uma mobilização desse calibre pela criança, como diz a Dra. Zilda Arns, com cerca de 160.000 voluntários, achamos que também o é pela Cultura ! A possibilidade de encontrarmos um ‘élan’ próprio para a área foi e é igualmente, na nossa percepção, perfeitamente possível !



Categoria: Causos & Coisas
Escrito por W. Pósnik às 11h01
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NÓS, OS GANDULAS DO BAIRRO !

      Lá pelo início dos anos 1950, nosso Hugo Lange, pouco antes, chamado de ‘Vila Russa’, tinha poucos moradores, poucas casas, poucas ruas abertas. Transporte, até o final da década anterior, só os bondes no Juvevê, ou os ônibus, no Alto da Rua XV, nas imediações da Ubaldino do Amaral. Uma distância de uns 2 km.  A maioria dos poucos moradores eram ‘russos’, mas falavam alemão. Coisas da dinâmica da geopolítica européia: provavelmente, esses alemães quando imigraram, traziam passaporte russo. Coisa parecida com os árabes ‘turcos’.

      Em torno dos anos de 1951-52, começaram a circular lotações, pela rua Augusto Stresser. De motoristas autônomos, dentre os quais, os mais famosos eram o Cornelsen e também o depois empresário do transporte urbano e Deputado, Erondy Silvério, já falecido. Comprava-se tudo, no armazém de secos e molhados, do ‘seu Juca’ (José Bonfim de Alcântara), ou do ‘seu’ Saturnino Portela, a 50 metros do primeiro.    

      Tínhamos a circulação diária pelo bairro, de tipos folclóricos, entre trabalhadores ambulantes ou assíduos frequentadores de botecos: como o português bigodudo, ‘seu Chico Peixeiro’ que passava sempre gritando, apregoando suas mercadorias. Levava-as em dois cestos, revestidos internamente por recipientes de ‘folha de flandres’ com tampas, onde iam os peixes e o gelo.  Sob encomenda, vinha camarão. O aparato era pendurado nas pontas de uma vara, a qual ia apoiada num dos ombros.  Possivelmente, o último remanescente de uma categoria profissional, tão presente no imaginário coletivo da época, que até fazia parte da coleção figurinhas das ‘Balas Zequinha’.

      Outra figura, cujo estilo também foi eternizado nas ‘Zequinhas’, era o ‘tintureiro’;  igualmente, com seu brado próprio; usava um uniforme parecido com o dos ferroviários da Rede, todo de azul marinho, quepe em tecido da mesma cor, com um distintivo empresa, na parte frontal. Parecia até um marinheiro !  Seu sucessor nessa atividade, não mais ambulante, foi um ‘japonês’, chamado Nabor Oki, que instalou-se no início da rua Bom Jesus – e era o único nipônico até então conhecido. E como 'tintureiro', como mandava o folclore da época. Só uns 10-12 anos depois, é que apareceu no bairro, outro ‘japonês’, o Tanigushi, como namorado da Marina Klamas.

      Uma das coisas bastante características do bairro, era o seu time de futebol, o Huracán São Vicente, da 3ª. Divisão de Amadores ('Série Amarela'). O prédio de sua sede social ainda existe: hoje, estranhamente, é uma loja de colchões, na rua Augusto Stresser, junta à linha férrea ! Aliás, praticamente, todos os bairros da Cidade tinham times de futebol, na 3ª., 2ª. ou 1ª. Divisão. Muitas praças públicas de hoje, já foram campos de futebol, dentre as quais, a praça 29 de Março – campo do Poty; a Affonso Botelho, do ‘5 de Maio’; a Bento Munhoz da Rocha Neto, ao lado do Paraná Clube, do ‘Guaíra’ entre outras.

      Duas a três vezes por mês, tínhamos o que se chamava na época, ‘Festival’: barraquinha de bebidas, serviço de alto-falantes, durante toda a tarde de domingo. O ‘prato principal’, para os aficionados do esporte bretão, nem sempre em maioria, assistiriam a duas partidas: a primeira, entre os integrantes dos’segundos-quadros’ (suplentes) e a segunda partida, entre os times principais.

      Nos jogos ‘oficiais’, os gandulas eram marmanjos, que se apropriavam da tarefa, na base da força bruta; na falta deles, os próprios jogadores iam buscar as bolas.  Nos treinos, durante a semana, eu e minha irmã, acho que tínhamos cerca de 7-8 e ela 5-6 anos respectivamente, éramos titulares da posição, sem nenhuma concorrência.

      Entre a casa do ‘seu’ Alberto Klamas, pai da futura 1ª. Dama da Cidade e o campo, havia um terreno, cercado de arame farpado, chamado pelos vizinhos, de ‘potreiro’; onde entre outros animais, pastava a vaca, da família Klamas, que fornecia leite para muitos clientes da região, inclusive nossa família. Na época, em nossa casa, os Klamas eram tratados como os ‘Leite-de-Água’.

      Um das figuras, que depois se tornou famosa e para a qual nos ‘gandulávamos’, foi o goleiro Levis, que poucos anos depois de sua passagem pelo time do bairro, foi parar como titular, no Vasco da Gama do Rio de Janeiro. E jogou, durante muito tempo, com grandes figuras do futebol brasileiro, como Bellini, capitão da Seleção Brasileira de 1962, Campeã do Mundo no Chile e que terminou a sua carreira, no Atlético Paranaense. Levis, que ao que me consta, após encerrar sua carreira, retornou a Curitiba e retomou seu emprego, na Construtora Curitiba, velha empresa de construção civil da rua Itupava. Mundo que dá voltas ... E volta ao mesmo lugar !



Categoria: Causos & Coisas
Escrito por W. Pósnik às 09h16
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