Blog do Pósnik


VERDADES & FANTASIAS II: NOSSA SAÍDA DA SEEC (2).

      Bem, aqui cabe um parêntesis: há neste processo, alguns elementos típicos do relacionamento entre mulheres. Estas, em maioria no grupo, nas suas relações inter-pessoais, sempre se apresentavam divididas, em duas ou mais alas. Nós, como integrante do grupo e observador privilegiado, nem sempre pudemos entender o por quê disso. Acrescido do fato da Dirigente principal, aparentemente, ‘aproveitar’ essas divisões. De forma que, sempre havia, em estado latente, um conflito com algumas ou com a metade das suas subordinadas diretas. Que nós, em alguns momentos, ingenuamente, diga-se de passagem, tentamos intermediar,  ‘apaziguar’, sem nenhum sucesso. Com o tempo, deixamos de tentar compreender ou interferir nesse fenômeno; passamos a tratá-lo sob o rótulo, não sabemos se ‘politicamente correto’, de ‘idiossincrasias femininas’. Coisas que envolvem relações de poder, posições relativas nos grupos,  subgrupos, estilos de gestão - dependência ou independência de atuação de algumas delas. Em última análise, personalidades fortes e independentes, em choque, com um estilo centralizador, autoritário e auto-referente do Dirigente principal.

      Por outro lado, nunca nos apeteceu, permanecer dentro do ‘Gabinete’, por horas a fio, sem resolver absolutamente nada de relevante. Em meio a telefonemas, a inúmeras pessoas que entravam e saíam, ‘despachos’ burocráticos, sempre prioritários, sem nenhuma disciplina.   Pelo menos do nosso ponto de vista, esse dia-a-dia ‘atribulado’ no Gabinete, nada mais era do que uma espécie de processo de fuga da realidade;  preenchido, com ‘ativismo’ burocrático acrítico !  As prioridades eram quase que exclusivamente operacionais e as discussões de filosofia de trabalho, estratégia de atuação, políticas públicas e coisas tais, deixadas para depois !   Sempre, para ‘outra oportunidade’ !!!

      Por isso, quando surgiu uma motivação qualquer para sair, não vacilamos. Havíamos escrito um documento interno, na nossa eterna e inútil ânsia de estimular discussões, que distribuímos entre as chefias, pela rede local da Instituição.  Deixava clara nossa posição, inclusive citando nomes, de mentores de supostas organizações da sociedade civil, que na nossa  percepção, eram muito mais motivados por interesses pessoais, do que grupais ou ‘da categoria’, nas suas tentativas de monopolizar as relações estado-sociedade, ou pressioná-lo por recursos.  Posição com a qual nos mantemos, exatamente nos termos originais. O documento ‘vazou’, através de funcionária do Museu Paranaense e chegou até as pessoas mencionadas, causando um certo mal estar, entre a ‘Classe’ (ou seus supostos representantes – aliás, os mesmos do ‘Comitê’ concorrente, de antes das eleições), o Governo e a Titular da Pasta. Assunto para uma visita urgente do Vice-Governador à SEEC, para avaliar a ‘crise’. Nossa primeira reação, a partir de ‘conselhos’ imediatistas vários, foi fazermos uma retratação – reação equivocada, a bem da verdade. Alguns dias depois, re-avaliada a situação, achamos que era o momento de deixar o grupo. Afinal de contas, nossas funções originais vinham, já de longa data, sendo esvaziadas. Na verdade, fruto de discordâncias na essência, do que deveria estar sendo feito. ‘Teimosias polacas’, haviam levado as coisas até aquele ponto !

      Em face dessas nossas insistências sobre estratégias de atuação, acabamos até por fazer um seminário interno em 2005, fora do ambiente de trabalho.  Num hotel da Região Metropolitana de Curitiba.  Que acabou sendo um conjunto de ‘brincadeiras’ para integrar um grupo, como se fosse o início de uma relação de trabalho, o que não era nosso caso .... Sem nenhum resultado prático ... Esse caminho, das práticas e do exercício democrático prévio às decisões, não era, nem nunca foi o caminho ‘oficial’. Creio que até, pode-se assim dizer, era um caminho odiado – imagem própria e que completa, o que nós passamos a classificar genericamente, como ‘idiossincrasias femininas’, por absoluta impossibilidade nossa, de entender o que realmente se passava, ou mesmo, quais eram as motivações para os conflitos latentes, sempre presentes.  

      De modo que, nossa saída da SEEC, retornando à nossa condição de ‘aposentado’ do Serviço público Estadual, nos permitiu um pouco de paz e a possibilidade de retomarmos muitas das nossas reflexões, largadas ‘pelo caminho’ !   Principalmente, sobre a razão da existência e o funcionamento desse tal de ‘aparelho-de-estado’, ainda tão pouco compreendido. E o papel da Cultura nele, muito mais obscuro ainda !  Tempos neoliberais ? Ou ciclo de mediocridade ?

 



Categoria: Causos & Coisas
Escrito por W. Pósnik às 15h11
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VERDADES & FANTASIAS II: NOSSA SAÍDA DA SEEC (1).

      Como foi dito no texto ‘Verdades I’, botávamos muita fé nas possibilidades de retomar o processo de inventário do patrimônio cultural, chamado ‘O Paraná da Gente’. E essa foi nossa  motivação maior ao voltar. Voltar, sobretudo, a nos iludir !  Pois, conhecíamos bem os mecanismos dominantes no ‘aparelho’.  A nós foi atribuído o cargo de ‘Diretor Geral’, o segundo na hierarquia da Instituição. Sem que nos fosse feita nenhuma indagação ! Na verdade, não era bem o que estava no nossos planos !  Conhecíamos bem as funções, embora não fizéssemos o gênero do burocrata típico, nem ansiássemos por pompa e circunstância.  Porém, achávamos que com o tempo, isto é, no andar da carroça, as ‘melancias’ se ajeitariam melhor, na busca ao nosso objetivo  maior – outro engano !

      Logo ao início do período, o discurso técnico-político, elaborado antes das eleições, com o qual havíamos nos envolvido fortemente, foi sendo deixado de lado, foi sendo esquecido. Coisas aliás, absolutamente normais, nos inícios dos trabalhos de cada período – quando as equipes assumem cada área e começam a perceber que ‘realidade’ e sonhos de mudanças, são coisas de galáxias políticas extremamente distantes e diferentes ! Ou mesmo, discurso políico 'enganador' deve ser descartado !

      Decorrido o primeiro ano, onde prevaleceram os ajustes internos, a adaptação do grupo de pessoas colocado nas posições-chave da estrutura formal e o aprofundamento do conhecimento da realidade concreta da área, para muitos dos seus integrantes e ainda,  o reconhecimento das estruturas sociais e de poder, com que a organização teria que interagir, o quadro foi ficando mais claro, começou a ‘cair a ficha’ !  Outros meses se passaram e foram se aclarando melhor os caminhos, as restrições, os perfis das pessoas e o que efetivamente se pretendia fazer, por parte de quem estava ‘escalado’ para tomar decisões !

      Nossa aversão às prioridades burocráticas, foi se acentuando. Embora, em tese, nos estivesse claro, que face às funções assumidas, nosso papel seria predominantemente operacional. 

      Contudo, sobrava a questão: quem faria o planejamento estratégico da Instituição ? Para onde o nosso ‘Titanic’ estava se dirigindo ?   E aos poucos, fomos nos convencendo, definitivamente, que isso era uma questão extemporânea, supérflua, descabida, despropositada.  A prática do dia-a-dia, do processo decisório da organização, demonstrava muito concretamente, que todo o tempo disponível, para ‘despachos internos’, ia sendo preenchido, por decisões burocráticas, ou ‘burocratizadas’, ou seja, todas vertidas em papéis simples, de menos de uma lauda, que passavam a ser analisadas, discutidas e ‘decididas’, ‘às pilhas’ e durantes horas a fio, tomando sempre, todo o tempo disponível, do Dirigente principal.  Exageros à parte, isso passou a ser inclusive, uma espécie de refúgio, para assuntos internos ou externos, tidos como desagradáveis; inclusive, os meus ! 

      Diante do quadro, a nossa aversão, foi assumindo foros de exclusão, tanto por nossa iniciativa, que julgávamos pura perda de tempo, passar horas, na companhia do ‘núcleo duro’, vendo o desfile interminável de papéis, entra dia e sai dia, entre uma viagem e outra !  Não participar disto ou ser dele excluído, foram duas vertentes de um mesmo fenômeno, ‘mutuamente exclusivas’, como se diria em matemática.

      Espaços para reflexão interna, nunca eram oportunos; nunca havia tempo disponível, para tais ‘veleidades diletantes’. Afinal, a carga de trabalho operacional, era e sempre foi por demais, ‘absorvente’. 

      Sempre supuzemos que um processo de descentralização, por menor que fosse, era saudável.  Não que passasse pela nossa mente, alguma sede de poder. Mas o que ficava absolutamente claro, é que o processo decisório, totalmente centralizado e dependente de uma só pessoa, não tardaria a se estrangular. Com o risco de se tornar exclusivamente burocrático, por força dos hábitos, o que na verdade, não tardou acontecer.  É claro que, para quem não tinha a mínima noção do que sejam políticas públicas, isto nem foi tido como um risco .... ‘Tocar’ a área da Cultura, como se fosse o ‘Protocolo’ ou o ‘Almoxarifado’ de uma área de Administração Geral, por exemplo, para esse ‘núcleo duro’, nem envolvia  qualquer impropriedade metodológica .... Bem, ‘analfabetismos funcionais’ em humanidades à parte , o quadro era perverso .... Não muito diferente, quero crer, da realidade do MinC, de outros estados ou de muitos municípios, onde o escolhido para ‘tocar’ a Cultura, muitas vezes, nada mais é do que o ‘festeiro mor’ do lugar  ....  Com isso tudo, nossa presença se tornou, gradativamente, incômoda, supérflua e inútil, acho que até perturbadora, sob o aspecto político interno ....



Categoria: Causos & Coisas
Escrito por W. Pósnik às 15h07
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