Blog do Pósnik


DA 'FESTA DA MATANÇA' OU DO 'PIXEIRÃO' FAMILIAR !

     Há uma tradição germânica, a ‘SlachtFest’ - Festa da Matança, festança popular que é parte do calendário turístico de cidades brasileiras onde é importante a presença desta etnia; também em clubes sociais e até mesmo, como tema de coreografias de grupos folclóricos.  Contudo, o que pretendamos narrar esteve relacionado a uma prática da família de nossos avós, pai, tios e tias, como um mutirão familiar para matar porcos – nada a ver com uma festa, mas com uma reunião familiar, de trabalho !. 
      Num texto de um ‘Causo’ anterior, mencionamos ‘negócios’ envolvendo vacas e porcos. Criar um ou dois porcos, além de aves diversas, de pombos a perus, era parte do cotidiano do nosso avô polaco, Ignácio.  No espaço próprio da sua propriedade, no Bacacheri, havia o ‘chiqueiro’;   com um ou dois porcos – no caso de dois, de idades bem díspares, de modo que os sacrifícios fossem, a intervalos compatíveis com o consumo dos produtos gerados.
      Era um ‘programa’ planejado com bastante antecedência – a não ser que o bicho passasse por alguma emergência, do tipo fratura. O ‘coordenador geral’ da operação era nosso pai, Stefano, que quando jovem, teve seu primeiro emprego, numa empresa do bairro chamada ‘Frigorífico Bacacheri’ – cujo proprietário era um certo Conrado Bonn. Ficava na região onde é hoje o bairro ‘São João’. Por estes antecedentes, ele conhecia bem a matéria. Pudemos observar o processo todo, algumas vezes, nos nossos 7-8-9 anos.  Passava-se o sábado e o domingo, às voltas com a tarefa; que envolvia grande parte da família – especialmente os moradores com nossos avós - tios, tias, solteiros ou ex-casados, primos e eventualmente, algum agregado, da tripulação do velho ‘Chevrolet Tigre’, dos anos ’30, de estimação do ‘seu’ Ignácio. Com que ele ‘ganhava a vida’, prestando serviços a colonos polacos, nos arredores de Curitba e na Colônia Muricy, em São José dos Pinhais. Seus negócios eram a compra e venda de terra preta, cinza (usada como adubo), esterco, serragem e outros detritos orgânicos, usados no preparo do solo para as culturas de olerícolas da região. Eventualmente, outros materiais, como caliça e remoção de entulhos.
      Mas o nosso foco é a ‘matança’: os porcos que chegavam a este estágio, eram enormes – muitas vezes, nem conseguiam ficar em pé ou andar;  ou mesmo, sofriam fraturas, pelo excesso de peso. As providências começavam cedo – com nossa avó preparando previamente, (1) grandes quantidades de água fervente, para ‘depilar’ o bicho. A logística da operação, incluía (2) o preparo do local – bancada de trabalho, ‘sarilho’, para suspender o animal - depois de sacrificado, instrumentos de corte, afiados previamente, máquina de moer carne e ‘instalação de água corrente’, para a limpeza. Com tudo já preparado, vinha  (3) o sacrifício propriamente dito – feito com uma marreta de ferro, de cerca de 5 kg., que era ‘aplicada na testa da vítima – que às vezes, por excesso de gordura na região, tinha que sofrer vários golpes, até ‘desmaiar’ ou desfalecer. Caso não morresse, lhe era aplicada uma faca pontiaguda, direto no coração. O próximo procedimento, era (4) a ‘depilação’, feita com a água fervente e um raspador, de forma cônica, de folha zincada, com a extremidade inferior bem afiada e a superior, com uma pequena abertura, pela secção de cerca de uma polegada, do vértice do cone. Esta abertura, ajudava a produzir um som bastante peculiar, da raspagem dos pelos.  Esse instrumento era semelhante, na forma, àqueles, grandes rolos de fio 'industrial', cônicos. Quanto aos pelos, fossem pretos ou 'ruivos', nunca fiquei sabendo, se teriam alguma aplicação ...
      Terminada essa etapa, o porco se apresentava, quase todo branco, ‘pálido’ ... Na seqüência, (5) era preparada a suspensão do animal: amarravam-se cordas, inseridas nos tendões das patas traseiras; duas cordas, a serem atadas a uma espécie de haste de balança em madeira, de modo que as pernas ficassem separadas, em cerca de meio metro. A (6) sangria, por sua vez, poderia ser feita após esta ‘meia suspensão’ do bicho, já sem pelos, ou como complementação do sacrifício, se as pancadas não dessem resultado. Antes da elevação, havia ainda (6) a evisceração, ou retirada das vísceras; praticamente tudo seria aproveitado de alguma maneira. ‘Limpo’, isto é, eviscerado e lavado, ele era finalmente, elevado, pelo sarilho, até ficar na vertical, com a cabeça a cerca de 50 cm. do piso. A tarefa a seguir era (7) serrar o corpo, ao meio - seção longitudinal, com um instrumento manual; só a cauda, já que o coração havia sido retirado antes, deveria diferenciar um lado do outro.
Após essa secção ao meio, começavam a ser feitos, com serra ou facas, os demais cortes: ‘quarto’ trazeiro, partes dianteiras, cabeça, pés, pernis, ‘costeletas’, ‘bistecas’ - estas serradas, uma a uma, de ambas as laterais da porção principal da sua coluna vertebral e outras partes, menos nobres.  E ao final, se fazia (8) a separação das carnes da banha – esta então, colocada em tachos, para derreter e ser armazenada em latões.
      Enquanto ‘rolavam’ estas tarefas externas, as mulheres da casa, preparavam os subprodutos cozidos, os quais teriam como resultantes, os ‘embutidos’; as tripas eram lavadas e viradas ao avesso, para receber depois, no seu interior, a lingüiça, os vários tipos de salames (que seriam pendurados, para ‘curar’, durante meses); e ainda ‘chouriço branco’ – vísceras várias, cozidas, sem sangue, ou o ‘chouriço preto’, com sangue - iguarias ests, também conhecidas nas suas variações regionais, como ‘sarrabulho’ ou ‘sarapatel’); e ainda, ‘queijo de porco’, toucinho, charque etc. etc.
      A ‘finalização’ dos embutidos era feita pelos homens, sempre sob a coordenação nosso pai, com a (8) moagem das carnes, para a lingüiça e os salames, bem como o seu tempero; ambos eram feitos com partes mistas, limítrofes de carne e banha, misturadas e processadas em máquina manual; instrumento semelhante às velhas máquinas domésticas a manivela, só que de maior porte. A mesma máquina, com implementos próprios, era utilizada para ‘encher lingüiça’ e os demais embutidos.
      O ‘serviço’ só estava completo, quando todo o processamento, a limpeza do local e do ‘ferramental’ haviam sido concluídas;  isto às vezes, ía até lá pela noite de domingo – tudo dependia do tamanho da ‘equipe’ e do bicho. Parte do produto, era aplicada na ‘remuneração’ da equipe 'externa’ (os que não moravam com nossos avós), parte vendida, como ‘excedente’ e cerca de 70%, armazenada e aplicada na subsistência familiar. Um mutirão, que vimos acontecer algumas vezes. E que fez a dispensa familiar, ‘engordar’ sobremaneira, por um bom tempo ! Coisas que os jovens de hoje, acham que é produto de alguma ‘abstração’ metafísica – tipo leite em saquinhos, já pasteurizado, sem nenhuma relação com vaca ou cabra !



Categoria: Causos & Coisas
Escrito por W. Pósnik às 16h01
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DE OUTRO SUBÚRBIO E DE OUTRA VACA !

      Já comentamos brevemente, sobre a vaca do seu Alberto e da D. Carlota Klamas, pais de Marina Klamas Taniguchi, que viria ser muito tempo depois, a Primeira Dama da Cidade – mas que há anos, abandonou este último apodo asiático. Vaca essa que nos abasteceu de leite 'in natura', por alguns anos. O fornecedor seguinte, foi o seu Brindarolli, que aliás, tinha várias espécimes.  Na vida dos subúrbios, da Curitiba dos anos 1950, isto era perfeitamente possível. Até porque como mencionamos, ao lado da casa daquela família, havia um terreno grande, de uns quatro lotes urbanos, cercado de arame farpado, que chamávamos de ‘potreiro’.

      Nosso saudoso avô polaco - Ignácio, também tinha uma, só que no Bacacheri – proximidades do Aeroporto. Lá não havia a facilidade citada – de deixar a vaca ‘pastando’, num campo perto de casa, e ainda sob o olhar do dono !   Diariamente, o bicho tinha que ser levado, por alguém da família (que era numerosa), há uns 600-700 metros de distância, para um cercado próximo ao dito aeródromo. E lá ficava ela sozinha, meditativa, a pastar e a ‘curtir’ a paisagem bucólica do lugar. Isto embora houvesse um enorme terreno ao lado, que inclusive interrompia a rua Nicarágua, onde ficavam as torres de rádio da velha Panair, tratada à época pelos ‘nativos’, como ‘Pa-na-hiiir’ – local no entanto, proibido para qualquer ser vivo.

      Ocorre que o cercado distante, também de arame farpado, não era abrigo seguro, não tinha boa conservação. E às vezes, a ‘mimosa’ evadia-se do local, ou mesmo, tinha sua fuga facilitada por algum ‘sacana’ das redondezas – para o desassossego geral da família. Nosso primo Luís Carlos, responsável primeiro pelo assunto, ao cair da tarde, ia buscá-la no local de sempre. Quando não a encontrava, fazia uma busca mais acurada, pelas imediações; alguns quilômetros quadrados, entre um capoeiral de uns dois metros de altura. Coisa difícil. Muitas vezes a achava, depois de algum tempo.

      Quando não a encontrava, voltava para casa, para reunir um ‘esquadrão de busca’, com todos os disponíveis – de 4 a 6 pessoas; exceção feita à nossa avó Maria, que não se envolvia nestas tarefas. Nos finais de semana que eu estava por lá, também era ‘convocado’ ! Na percepção de nosso avô, a vaca era de todos e cuidar dela era parte importante dos encargos familiares.

      O resultado dessas buscas era bem variado: às vezes, ela era achada, sem muito esforço, mesmo que distante do local original. Outras vezes não. Nestes casos, quando muito, tinha-se a informação de ela havia sido ‘presa’ pela Prefeitura; podia ter sido 'roubada'; ou que ela havia sido ‘retida’, por ter entrado em ‘território militar’. Aliás, as cercas de arame dos fundos das unidades militares, próximas de onde é o hoje o ‘Jardim Social, também não eram objeto de muito cuidado. Por isso, não constituíam obstáculo sério, no meio do matagal inóspito. Aliás, a vaca nem sabia que estava atentando contra a ‘segurança nacional’ nos seus passeios. Muitas vezes, outro ‘sacana’ - sabem como é que os polacos eram tratados - facilitava sua entrada, ou até colocava o bicho para dentro da cerca do quartel e a ‘pobre’ acabava retida, até o responsável aparecesse ... Nestes casos, só o nosso avô poderia resolver ... Sempre com algum prejuízo, em multas, taxas de ‘manutenção’, de remoção, propinas etc. e tal. Ainda com a agravante: ela vinha sem leite ...

      A dita cuja era um ‘personagem’ importante, no dia-a-dia familiar. Só era descartada ou aposentada, em último caso, quando já não dava mais leite, estava muito velha, ou doente ! Ou às vezes, como objeto de algum bom ‘negócio’ – trocada por outra mais nova ou por porcos ! E tinha mais: quando ela voltava ‘ao lar’, se havia roupas no varal, se nossa avó ou as meninas de então (nossas tias) estivessem desatentas, a bendita as mastigava e em alguns casos, engolia os trapos ... Para o desespero geral ... Menos para o nosso avô, conhecido nas redondezas, como ‘Inácio Bigodudo’, que não estava nem aí com estas coisas. Em casa, nas horas vagas, a atender as demandas por dinheiro, puxava a sua 'guaiaca' para frente, abria e fornecia o numerário solicitado. Sempre circulando pela casa ou pelo quintal, a dar as ordens aqui e ali, enquanto picava o fumo, no preparo do seu indefectível cachimbo !   Naquela pose característica, de quase todos os ‘cachimbeiros’ experientes !   'Velhos' tempos !



Categoria: Causos & Coisas
Escrito por W. Pósnik às 18h42
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NOTA DE FINAL DE ETAPA II !

Prezados Amigos, que nos acompanham nesta jornada !

      Após concluirmos o re-ordenamento dos textos sobre 'Políticas Públicas de Cultura', numa seqüência que facilitará a leitura - começa pelo ROTEIRO e termina na SÍNTESE, estamos dando por concluída esta fase inicial, do nosso trabalho, desta nossa tentativa de provocar discussão sobre o tema. A seqüência anterior não está mais 'no ar', enquanto que a versão mais recente, sofreu alterações e revisões.

      Do 'velho' ról de textos, só ficaram os 'Causos' & Coisas. Gratos pela atenção. PS1. O e-mail específico para os reparos e comentários em sigilo, já está disponível: é o    wposnik@gmail.com     PS2. O 'último' texto da Síntese final, é o 10.3 - que já está no 'histórico', embora seja do mesmo dia 28/03.



Escrito por W. Pósnik às 22h39
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