1990 - UM ANO MUITO LOUCO ! (2)
O ano de 1990, como já foi exposto em outro lugar, foi o ano em que o Governador do período, ao invés de desincompatilizar-se do cargo e se candidatar ao Senado, resolveu permanecer, em nome da garantia da eleição do sucessor, à época, do mesmo partido.
Essa permanência, também o levou a tentar uma grande guinada, de final de mandato; com a substituição de alguns auxiliares e remanejamento de outros. Entre os remanejados estavam o então Chefe da Civil, nós, Diretor Geral e um grupo de técnicos que atuavam por lá. Fomos deslocados para a Secretaria de Estado da Administração SEAD, hoje Administração e Previdência - SEAP. ‘Nosotros’, candidato a Diretor Geral ! Como o ocupante do cargo era ligado ao candidato a Governador e não seria remanejado, acabamos escolhendo outras funções. Antes de nossa escolha, nos foi oferecida a Diretoria de Recursos Humanos – DRH, a qual não aceitamos, de pronto ! Havíamos prometido para nós mesmos que RH nunca mais ! Já antes desta época, tínhamos renegado nosso passado, de oito anos na área. De modo que, nestas condições, fomos para a área de Administração Geral daquele Órgão.
E aqui começa, uma espécie de ‘maratona de 200 Km. em 11 meses’. A idéia era ‘botar p’rá quebrar’. Resolver quase tudo o que não se tinha resolvido, nos três anos anteriores e marcar a permanência do Governador no cargo ! A partir de então, passamos a responder por duas áreas da SEAD (CAS + CRA), esta última, em fase de extinção, com muitos servidores sem tarefas definidas. Também respondíamos, junto ao Secretário, pela coordenação operacional da Reforma Administrativa, que o Chefe do Governo pretendia realizar e cuja Coordenação Geral estava atribuída ao próprio Titular da Pasta. Neste ínterim, o Governador resolveu substituir o Titular do Planejamento, que também acumulava a Presidência do Ipardes. O Titular da SEAD então, passou a acumular o cargo e nós fomos designados para a nosso quarta atribuição formal paralela: a Presidência daquela Fundação ! Foram tempos muito loucos, mas de muita realização.
Na Reforma, havia questões de remanejamento físico de órgãos, arrecadação de excedentes de veículos, levantamento de pessoal disponível, entre outras providências. Muitas medidas drásticas, que o Chefe do Executivo estava com o firme propósito de tomar, inclusive pelo impacto político favorável que teriam. Trabalhamos no dia 1º. de maio, para sinalizar a ‘blitz’. No remanejamento de órgãos, era necessário retirar a Defensoria Pública do velho ‘Castello Branco’ (hoje, Museu Oscar Niemayer) e colocá-la na rua Mal. Floriano, junto ao DER. Lá, estava a então Sucepar, entre outros ‘ocupantes’. E transferir o Ipardes, que estava no Alto São Francisco, para o Castello.
Como era de se esperar, todos só sairiam dos tidos como ‘seus lugares’ na prática, arrastados ! Depois de muitas reuniões, discussões e negociações sem nenhum resultado, providenciamos emprestados, três caminhões da Ceasa/Pr. Carregamos ‘as tralhas’ da Defensoria e despachamos para o lugar onde ainda estava a Sucepar. A ‘mudança’ chegou e foi mantida nos caminhões, por um dia ou dois. Como a Ceasa pedia a devolução dos caminhões, tudo teve que ser descarregado, no pátio interno do DER. E até que a Sucepar saísse, a ‘mudança’ permaneceu ao ar livre, coberta por lonas. E choveu no período. Quanto aos servidores da unidade removida, nem saberíamos dizer o que era feito deles, durante o período em que seus ‘apetrechos’, estavam ao relento. Acho que ficaram como aqueles animais de estimação, quando caem da mudança - 'perdidos' ! Ou o mais provável, cofortavelmente, nos seus escritórios particulares.
Olha ! Pareciam até medidas dos tempos da ditadura ! A mudança do Ipardes para o Castello, também foi penosa. Ninguém da instituição, aceitava trabalhar no ‘porão’ – aliás, todo o prédio era muito mal visto. Promover essas medidas drásticas e ainda, responder pela sua Presidência, não foi uma tarefa fácil – ‘pari passu’ às demais tarefas recebidas. Acho que ficamos à época (não só nós !), terrivelmente mal vistos, por quase todos os servidores da Fundação. Acrescido ao fato, no conjunto das medidas, de ter sido produzida uma lista de técnicos dispensáveis – fundamentada nas próprias percepções internas daquela Instituição. Lista que acabou não sendo aceita, para efeitos de disponibilidade desse pessoal a outros órgãos, pela área de RH da SEAD – que exigia a aceitação formal, de cada um dos listados. Depois de ‘rotulados’ de dispensáveis, pelos próprios companheiros, esses técnicos voltaram às suas antigas funções ! Situações que se tornaram rotina e eram tratadas com naturalidade, como ‘ossos do ofício’ ! Tudo em nome da redução de custos, racionalização de processos operacionais e de gestão e melhoria da articulação da ‘máquina’. Mas, o pior ainda estava por vir: logo após a saída do Ipardes daquele vistoso prédio do Alto São Francisco, ali próximo à Sociedade Protetora dos Operários, por supostas razões do Governo, de redução de custos com aluguéis, a Corregedoria da Polícia Civil instalou-se no mesmo local ! Nem é preciso dizer da insatisfação geral dos desalojados !
‘Despachos’ de rotina ou discussões dos assuntos relacionados às quatro tarefas sob a nossa responsabilidade, só eram possíveis, durante os deslocamentos pelos corredores ou dentro de veículos. Até no banheiro, lavando as mãos ... Aliás, gesto simbólico ! Nunca trabalhamos tanto ou sofremos tantas pressões, ao mesmo tempo. E ainda existe muita gente por aí e a mídia é unânime em reverberar, a imagem de que servidor público trabalho pouco. Acho que é coisa do imaginário carioca, dos anos 1950-60, da ‘Era do Rádio’ e do programa semanal ‘Balança Mas Não Cai’, da ‘velha’ Rádio Nacional do Rio de Janeiro – Brasil, como era o seu bordão à época ! Que parece ser ainda verdadeira, entre os cariocas: não procure ninguém, na sua repartição pública, antes das 11 da manhã !
Escrito por W. Pósnik às 21h00



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