12. CULTURA E A BRUTALIDADE DO CAPITALISMO.

André Martinez, in 'Cultura e Mercado', em 20/09/06.

No (indispensável) “A idéia de cultura”, o crítico literário britânico Terry Eagleton tenta buscar uma revisão do sentido político da noção de cultura, após os desagravos da contemporaneidade, “debilitantemente ampla” ou “desconfortavelmente rígida”. Ele parte da epistemologia do termo, desvendando como através dos tempos molda e é moldado pelo ciclo entre a afirmação e a superação das ordens políticas dominantes.

São páginas e páginas, e uma vida de investigação. Mas, para um aficcionado em transformação como eu, a afirmação das entrelinhas é quase lacônica. “Existem muitas forças que talvez possam opor resistência à brutalidade do capitalismo. A cultura não tem nenhuma posição de destaque entre elas” pensa, sem deixar de brindar o leitor com um acorde de reflexões que o leva a compreender, sem poder explicar, porque somos cultura.

A idéia de cultura molda a outorga do modelo de sociedade predominante. Permitiu ao Iluminismo decretar a hegemonia do Ocidente. A aristocracia civil ainda é o paradigma de cidadania vigente. Um cavalheiro culto, moderado, cristão - polido a ponto de achar as revoluções políticas e econômicas muito de mau gosto – faz-se ideal para sustentar a inevitável passagem do poder para os sistemas de representação democrática sem ameaçar alguns interesses privilegiados. Estabilidade e politesse andam de mão dadas. Idéia de cultura que domina.

Hoje, a ordem mundial - sedenta de auto-perpetuação em um deserto - nos requer desenvolver as tribos maiores e cristalizar as inevitáveis e múltiplas menores. A pós-modernização da outorga de civilização. A idéia de cultura atualiza sua autoridade e compromisso continua combinando com manutenção. A despeito, porém, de qualquer idéia com que a queiramos moldar, a cultura, em sua complexidade fenomenológica, aponta também para o oposto interdependente da ordem mundial. A expressão humana sempre carrega algo de universal e original. Algo sempre acima de toda e qualquer apropriação de poder. Aquilo que nos faz parte de uma espécie, de um ecosistema e de um cosmos.

Este princípio da cultura certamente está bem acima de qualquer noção costumaz de desenvolvimento, todas construídas tão recentemente com o advento da indústria. O que o ser humano pode criar e expressar vai muito além dos poderes políticos que pode estabelecer.

É acreditando nisso que costumo criticar toda a tentativa de transformar a cultura em instrumento de civilização. Depois da banalização do conceito de cidadania, tenho receio dos projetos de transformação social. Entretanto, seria por demais conformista, ou radical, não cogitar que a fórmula do desenvolvimento poderia criar embriões capazes de fazê-la superar-se.

Eagleton pensa a cultura criticando o ponto de vista de “um mundo onde a riqueza de três indivíduos mais ricos é igual à riqueza conjunta de seiscentos milhões dos mais pobres”. Proponho a mesma reflexão para discutir as diretrizes de nosso trabalho como propositores, gestores, pensadores e executores de políticas culturais.

Como contribuir para a redução das diferenças sociais e econômicas e para a não violência ativa? Ou, como exercer nossa vontade pelo novo?

Os debates sem quadradinhos para marcar com “X”, em seu aparente des-compromisso, sei que são difíceis de aderir. No entanto, vale a pena insistirmos.

Observação (nossa): este autor tem uma inifinidade de textos, de interesse para nossas reflexões sobre 'Políticas Públicas de Cultura' - inclusive nos arquivos do periódico eletrônico citado.