16. DE MITOS E ILUSÕES FILOSÓFICAS, INSTITUCIONAIS E POLÍTICAS !

        Hoje, procuramos refletir mais um pouco sobre a realidade das Políticas Públicas de Cultura, em nosso País; reflexão esta, que também tem como motivação extra, a saída do Ministro Gilberto Gil - que muitos consideram um marco, um divisor de águas, na história do MinC – não fazemos parte desta linha de avaliação. Achamos que o ex-Ministro, construiu um belo discurso, na sua trajetória por lá, com muito pouca articulação ou repercussão institucional, no próprio MinC, ou no aparelho-de-estado em geral.

        Contudo, o que nos leva a escrever neste espaço, mais estas linhas, é uma lembrança, de uma velha e conhecida alegoria, o ‘Mito da Caverna’, de Platão. É claro que ao elaborar esta estória, sobre um grupo de pessoas aprisionadas, durante longo tempo, numa caverna escura, Platão tinha um propósito filosófico. Essas pessoas, acorrentadas imóveis, de costas para sua entrada, podiam observar apenas ao seu fundo, a projeção das silhuetas dos passantes, alguns carregando objetos e seus ruídos e vozes – como que num cenário do teatro das sobras. Com isso, passaram a ter a sensação de que a realidade concreta era aquilo. Um dos prisioneiros no entanto, conseguiu fugir; teve uma dificuldade imensa em se adaptar à luz e às novidades do mundo exterior - a realidade concreta. Tempos depois, após muitos dilemas, voltou à caverna, na tentativa de convencer os demais, que lá fora era diferente, muito melhor e havia liberdade. Depois de desacreditado acabou morto, pelos incrédulos. Mas, ao que tudo indica, deixou uma semente – uma dúvida, num ou noutro. O propósito do filósofo era mostrar que a ‘atitude filosófica’, não deve levar a estas falsas percepções, a esses erros; que o filósofo deve sempre desconfiar de suas percepções, desconfiar das formas padronizadas e quase ‘automáticas’, com que as pessoas 'simplificam' e 'completam' suas percepções da realidade concreta, mantendo-se na ilusão de que a conhecem com toda a objetividade.

        Este quadro exposto - narrado de forma muito mais nítida, objetiva e detalhada, no seu original, nos evoca, quando aplicado à Cultura, não a uma pergunta, mais a uma série delas: será que alguém, dentro ou fora do nosso Setor Público, conhece pormenorizadamente, a realidade objetiva da Área ? Há algum discurso articulado, desse processo de investigação, ou dos seus resultados ? Pois, afinal de contas, como atuar sobre um objeto de intervenção, por mais amorfo, banal e pautado no senso comum que possa parecer, para muitas mentes ‘desapetrechadas’, sem conhecê-lo sistemática e objetivamente ? Como é possível atuar, aproveitando a alegoria platônica, guiado por ilusões, equívocos de percepção, mistificações políticas, ou mesmo, desvios de rumo sob o aspecto moral e de valores ?

        Quer nos parecer que, para o aparelho-de-estado resgatar um mínimo de operacionalidade, eficácia de gestão e sentido republicano na sua atuação, seria necessário humildemente, a admissão da necessidade de retomada dos passos mais elementares da reflexão desta linha da filosofia grega clássica, moldada sucessivamente, pelos seus três expoentes máximos, Sócrates, Platão e Aristóteles: o que ? o por que ? e o para que ?  ‘Passos’ estes que balizam a instalação de um processo sólido, de conhecimento da realidade, prévio ou 'pari passu' à intervenção. Será que esse processo está instalado, será que ele existe algures ? Onde estão seus registros ? Cadê a nossa bibliografia a esse respeito ? Pois, como é elementar, à realidade brasileira, cabem soluções próprias, nossas ! E ainda, será que as nossas Instituições de Ensino Superior ou outros entes de pesquisa, públicos ou privados, estão sintonizados com essa questão ? Será que a importância capital da Cultura, como objetivo, como instrumento ou meio de mudança (não apenas, com culpada pelo nosso atraso), está bem colocada pela nossa 'inteligensia' e tem lugar relevante no imaginário coletivo da nossa sociedade ? Ficam aí essas perguntas, para quem se dignou a nos acompanhar até aqui !