DE 'BOIS DE PIRANHA' E DE MANIFESTAÇÕES POPULARES !

        Ontem, 30 de agosto de 2008, a APP-Sindicato ‘comemorou’ mais uma vez, os 20 anos daquela manifestação, concluída em frente ao Palácio Iguaçu, em que nos tumultos entre professores e a Polícia Militar, houve por parte desta última, o uso de cavalos e bombas de efeito moral. Episódio que continua sendo rememorado, ano após ano. Evento que foi tratado pela mídia à época como uma espécie de batalha campal. Puro exagero ! Passado todo esse período de duas décadas, o incidente vem sendo trabalhado, de modo a assumir aos poucos, imaginário coletivo de professores e dos demais curitibanos, distantes daquilo tudo - hoje ou naquela data longínqua, uma certa dimensão mítica. E como todo o mito ... Qual seria a sua dimensão concreta ? Pois é ! Os vinte anos do 30 de agosto de 1988, mereceram mais uma passeata anteontem - com direito a camisetas especiais e tudo o mais. Iniciada na praça Santos Andrade e concluída, com grande alarido, na suposta ‘praça de guerra’ daqueles tempos; ao que tudo indica, suas lideranças procuraram dar mais um passo de reforço no mito criado para a data.

        Para nós todos, moradores do Centro Cívico, do caminho todo por onde a manifestação transitou, ou mesmo, para aqueles ‘nativos’ que estavam apenas circulando, inadvertidamente por sua rota, tais circunstâncias reavivaram a sensação de que professores e outros manifestantes – com destaque para suas lideranças, têm muito pouco respeito aos demais concidadãos. No caso dos participantes do evento de anteontem, já é notório o seu descaso com seus alunos, principais vítimas e em geral as únicas - das greves e outros tipos de ameaças que a ‘categoria’ pratica, no intuito de pressionar as respectivas autoridades constituídas, no que julga ser seu direito. Efetivamente, trata-se de um direito seu, o de se manifestar, nos limites do respeito à ordem pública e aos direitos dos demais 99,99% de curitibanos. Aliás, exemplo de cidadania que como professores e servidores públicos, todos teriam a obrigação de dar. Fica aqui a indagação, à moda da discussão sobre as origens primeiras, do ovo ou da galinha: entre nossos políticos e nossos professores da rede pública – quem ensina quem ? Ou quem dá mau exemplo a quem? Será que nossos políticos nasceram ‘em chocadeiras’, já crescidos e não passaram pela escola ?  

        A população em geral, que também inadvertidamente, mora nas cercanias das sedes dos poderes constituídos, pouco ou nada tem a ver com essas polêmicas. É uma maravilha acordar e ouvir, quer queiramos ou não, música ‘caipira-jéca’, discursos raivosos, via aparatos eletrônicos, elevados aos píncaros dos 200 dB, que manifestantes ou acampados, sejam sem-terras, professores ou sem-escrúpulos de todo gênero, que raivosos fazem desse espaço da cidade, seu pátio de manobras ! Como se não bastasse o Carnaval ... E aquelas ‘maravilhas’ de sambas-enredo !

      Rememorar esta data, para nós tem um sentido todo especial – como testemunhas oculares que fomos, do evento original de 1988. Manifestações políticas urbanas, nas últimas três ou quatro décadas, passaram a ser objeto de estudos, de sistematização de estratégias e táticas e de treinamento especializado, numa espécie de ‘guerrilha light’, em vários lugares do mundo, da Califórnia à Coréia do Sul, passando pelo Oriente-Médio, Balcãs, Doha e até na China. Em Curitiba, já se faziam coisas do gênero, durante a 1a. Guerra Mundial. Hoje, trata-se de dar ‘formação’ e tratamento personalizado aos espécimes, que à moda de ‘bois de piranha’ animam essas manifestações. O evento original tivemos oportunidade de observar por inteiro, desde as janelas no 4º. andar do Palácio; aliás, no ‘momento dos combates’, a sala ao lado àquela que estávamos, rotineiramente ocupada pelo Diretor Geral da Casa Civil, estava cedida para uma entrevista gravada, com o então Secretário da Segurança Pública, que frente à câmara da TV Iguaçu, perdeu a fala e quase caiu da cadeira, com a explosão da tal bomba.  Este fato tornou evidente, que aquela autoridade não tinha notícia, da posse desses artefatos pela ‘tropa’ destacada para ‘acompanhar o happening’; e muito menos, da possibilidade do seu uso irrefletido. Mas, ia falar sobre o assunto – ia dar e deu entrevista sobre o confronto.

      Não obstante, o começo de tudo, esteve a cargo de alguns ‘bois de piranha’, que teriam o papel de ‘esquentar’ os ânimos – dentre eles, um velho amigo nosso, professor aposentado do Município de Curitiba, Rubens Oliveira – que não sabemos se ainda vive e o que faz da vida. Com um grupo de mais umas três ou quatro pessoas, pretendia por todos os meios, armar uma barraca num canteiro que havia próximo à imagem Santa que dá nome à praça – hoje leito da rua. Acho que àquela época, esse tipo de ação já era objeto de algum tipo de reflexão e sistematização por aqui – para determinadas ‘atividades de campo’. Seriam lições de 1968 ?  As tentativas tenazes de armar a dita barraca, que nem se sabe o que iria abrigar, levaram com que algum portador menos avisado de bomba, fizesse uso da mesma; ‘restaurar a ordem’, por essa via era coisa habitual na formação militar – pouco afeita, ainda hoje, às práticas democráticas.  ‘Efeito moral’, não se sabe se voltado às próprias tropas ou aos manifestantes. O impacto maior, ao que parece, foi com os cavalos.  Cavalos e cavaleiros levaram um certo tempo, para 'acertar o passo' !   Este momento tem sido objeto de um esforço de cristalização, congelamento e eternização, por parte das sucessivas lideranças do magistério público – para uso em momentos de carência ‘focos motivacionais’ mais concretos ! 

      Do ponto de vista do Governo, a solução simples do problema, quer nos parecer, teria sido a demissão sumária do Titular da Segurança – que ao que tudo indica, foi quem mais se assustou – confiramos o registro televisivo. Decisão que o Chefe do Executivo da época, houve por bem não tomar. Preferiu carregar sozinho, para a posteridade e para a história, a ‘culpa’ pelo acontecido. E com isso, permitiu que pela pedagogia da repetição, fosse ano a ano reiterada essa tentativa de ‘reforço’ e perpetuação do mito !