Blog do Pósnik

Causos & Coisas



DE 'BOIS DE PIRANHA' E DE MANIFESTAÇÕES POPULARES !

        Ontem, 30 de agosto de 2008, a APP-Sindicato ‘comemorou’ mais uma vez, os 20 anos daquela manifestação, concluída em frente ao Palácio Iguaçu, em que nos tumultos entre professores e a Polícia Militar, houve por parte desta última, o uso de cavalos e bombas de efeito moral. Episódio que continua sendo rememorado, ano após ano. Evento que foi tratado pela mídia à época como uma espécie de batalha campal. Puro exagero ! Passado todo esse período de duas décadas, o incidente vem sendo trabalhado, de modo a assumir aos poucos, imaginário coletivo de professores e dos demais curitibanos, distantes daquilo tudo - hoje ou naquela data longínqua, uma certa dimensão mítica. E como todo o mito ... Qual seria a sua dimensão concreta ? Pois é ! Os vinte anos do 30 de agosto de 1988, mereceram mais uma passeata anteontem - com direito a camisetas especiais e tudo o mais. Iniciada na praça Santos Andrade e concluída, com grande alarido, na suposta ‘praça de guerra’ daqueles tempos; ao que tudo indica, suas lideranças procuraram dar mais um passo de reforço no mito criado para a data.

        Para nós todos, moradores do Centro Cívico, do caminho todo por onde a manifestação transitou, ou mesmo, para aqueles ‘nativos’ que estavam apenas circulando, inadvertidamente por sua rota, tais circunstâncias reavivaram a sensação de que professores e outros manifestantes – com destaque para suas lideranças, têm muito pouco respeito aos demais concidadãos. No caso dos participantes do evento de anteontem, já é notório o seu descaso com seus alunos, principais vítimas e em geral as únicas - das greves e outros tipos de ameaças que a ‘categoria’ pratica, no intuito de pressionar as respectivas autoridades constituídas, no que julga ser seu direito. Efetivamente, trata-se de um direito seu, o de se manifestar, nos limites do respeito à ordem pública e aos direitos dos demais 99,99% de curitibanos. Aliás, exemplo de cidadania que como professores e servidores públicos, todos teriam a obrigação de dar. Fica aqui a indagação, à moda da discussão sobre as origens primeiras, do ovo ou da galinha: entre nossos políticos e nossos professores da rede pública – quem ensina quem ? Ou quem dá mau exemplo a quem? Será que nossos políticos nasceram ‘em chocadeiras’, já crescidos e não passaram pela escola ?  

        A população em geral, que também inadvertidamente, mora nas cercanias das sedes dos poderes constituídos, pouco ou nada tem a ver com essas polêmicas. É uma maravilha acordar e ouvir, quer queiramos ou não, música ‘caipira-jéca’, discursos raivosos, via aparatos eletrônicos, elevados aos píncaros dos 200 dB, que manifestantes ou acampados, sejam sem-terras, professores ou sem-escrúpulos de todo gênero, que raivosos fazem desse espaço da cidade, seu pátio de manobras ! Como se não bastasse o Carnaval ... E aquelas ‘maravilhas’ de sambas-enredo !

      Rememorar esta data, para nós tem um sentido todo especial – como testemunhas oculares que fomos, do evento original de 1988. Manifestações políticas urbanas, nas últimas três ou quatro décadas, passaram a ser objeto de estudos, de sistematização de estratégias e táticas e de treinamento especializado, numa espécie de ‘guerrilha light’, em vários lugares do mundo, da Califórnia à Coréia do Sul, passando pelo Oriente-Médio, Balcãs, Doha e até na China. Em Curitiba, já se faziam coisas do gênero, durante a 1a. Guerra Mundial. Hoje, trata-se de dar ‘formação’ e tratamento personalizado aos espécimes, que à moda de ‘bois de piranha’ animam essas manifestações. O evento original tivemos oportunidade de observar por inteiro, desde as janelas no 4º. andar do Palácio; aliás, no ‘momento dos combates’, a sala ao lado àquela que estávamos, rotineiramente ocupada pelo Diretor Geral da Casa Civil, estava cedida para uma entrevista gravada, com o então Secretário da Segurança Pública, que frente à câmara da TV Iguaçu, perdeu a fala e quase caiu da cadeira, com a explosão da tal bomba.  Este fato tornou evidente, que aquela autoridade não tinha notícia, da posse desses artefatos pela ‘tropa’ destacada para ‘acompanhar o happening’; e muito menos, da possibilidade do seu uso irrefletido. Mas, ia falar sobre o assunto – ia dar e deu entrevista sobre o confronto.

      Não obstante, o começo de tudo, esteve a cargo de alguns ‘bois de piranha’, que teriam o papel de ‘esquentar’ os ânimos – dentre eles, um velho amigo nosso, professor aposentado do Município de Curitiba, Rubens Oliveira – que não sabemos se ainda vive e o que faz da vida. Com um grupo de mais umas três ou quatro pessoas, pretendia por todos os meios, armar uma barraca num canteiro que havia próximo à imagem Santa que dá nome à praça – hoje leito da rua. Acho que àquela época, esse tipo de ação já era objeto de algum tipo de reflexão e sistematização por aqui – para determinadas ‘atividades de campo’. Seriam lições de 1968 ?  As tentativas tenazes de armar a dita barraca, que nem se sabe o que iria abrigar, levaram com que algum portador menos avisado de bomba, fizesse uso da mesma; ‘restaurar a ordem’, por essa via era coisa habitual na formação militar – pouco afeita, ainda hoje, às práticas democráticas.  ‘Efeito moral’, não se sabe se voltado às próprias tropas ou aos manifestantes. O impacto maior, ao que parece, foi com os cavalos.  Cavalos e cavaleiros levaram um certo tempo, para 'acertar o passo' !   Este momento tem sido objeto de um esforço de cristalização, congelamento e eternização, por parte das sucessivas lideranças do magistério público – para uso em momentos de carência ‘focos motivacionais’ mais concretos ! 

      Do ponto de vista do Governo, a solução simples do problema, quer nos parecer, teria sido a demissão sumária do Titular da Segurança – que ao que tudo indica, foi quem mais se assustou – confiramos o registro televisivo. Decisão que o Chefe do Executivo da época, houve por bem não tomar. Preferiu carregar sozinho, para a posteridade e para a história, a ‘culpa’ pelo acontecido. E com isso, permitiu que pela pedagogia da repetição, fosse ano a ano reiterada essa tentativa de ‘reforço’ e perpetuação do mito !



Escrito por W. Pósnik às 17h39
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NOSSO DESLIGAMENTO DA SEEC (3) Continuação

        Poderíamos fazer algo como o que o nosso Governador mantém, que é a desoneração das pequenas e médias empresas ... A sociedade faz (o que só ela é capaz de fazer !) e o poder público, atua supletivamente, potencializando os seus efeitos .... Ajudando ou pelo menos, não atrapalhando ... Não se diga que isto é uma posição ‘neoliberal’. É muito mais decorrente da falência do aparelho-de-estado ... E da precariedade do sistema cultural público. Em paralelo à desoneração das pequenas e médias empresas, poderíamos estar descobrindo os pequenos e médios talentos, as pequenas e médias experiências de preservação, os elementos significativos do imaginário coletivo, para ajudá-las a sobreviver, a crescer e a se desenvolver .... Incutindo-lhes responsabilidade social, sobretudo, pela discussão ampla de processos e produtos ... Com isso, dando-lhes visibilidade e gerando saldos de educação preservacionista e auto-estima.

        O nosso Ministro, por sua vez, mais parece um Weffort com viola (literalmente, ausente de tudo o que se faz por aqui ...), Faz bem seu ‘papel’, fora do País. À maneira do FHC e seus discursos pomposos, pelo mundo afora. Talvez, se fôssemos fazer comparações, seu antecessor no Minc fez mais ... Mesmo descontado o tempo maior que dispôs ...E ainda, em ‘silêncio obsequioso’ !

        Com relação a bibliografia e a produção acadêmica sobre o tema, é espantoso !  Não existe praticamente nada em português, sobre políticas públicas de cultura (mesmo em Portugal). A não ser essas porcarias sobre renúncia fiscal, fontes de financiamento, elaboração de projetos e coisas tais, típicas da ‘terceirização’ de ações e decisões do setor, do ciclo neoliberal, pelo qual nosso País passou, mas que já parece estar em refluxo. Os teóricos mais conceituados, ao nível internacional, como François Matarasso (inglês de Nottingham), e muitos outros britânicos, são quase unânimes ao recomendar o desenvolvimento de uma base de dados informacional sobre os fenômenos culturais, para posterior construção de indicadores; de modo a orientar as políticas e avaliar os resultados. Esse ‘cara’ vem dando, há muito tempo, consultoria através de entidades internacionais, para dezenas de países, da América à Oceania (mais recentemente, na Europa Oriental). Sempre, na direção da formação gradativa de uma base de dados, resultante de algum inventário, ou do próprio dia-a-dia de atuação da área, relacionada com o desenvolvimento cultural.

        Há avanços significativos, em alguns lugares, como Austrália, Canadá, Grã-Bretanha, França, Chile, México etc. Porém, não estamos muito distantes do que há de melhor; e aí talvez, esteja o cerne da questão: a minha visão utópica – não é difícil produzir essas mudanças ! Só falta superar a nossa inércia, o nosso conservantismo e nossas outras vacilações associadas. Outro exemplo, é do norte-americano do MIT, J. Mark Schuster, que inventariou as principais contribuições internacionais e promoveu em 2001, com apoio de parceiros de seu País, um seminário internacional, na Rutgers University (NJ), cujo resultado, também apontou a mesma direção; neste caso, tratava-se de discutir a formulação de políticas públicas de cultura, para os USA, aos níveis federal e dos estados. Tudo exposto no livro ‘Informing Cultural Policy’. Entre este País, que não tem instituições culturais públicas fortes (pela sua formação histórica) e nós, que supomos tê-las e não as temos, há muitas semelhanças e muitos paralelos a serem feitos.

        A chamada ‘Cartografia Cultural’, presente quase que acidentalmente, no discurso do atual Titular do MinC, tem versões consistentes, no México e no Chile; nada mais é do que um inventário, devidamente espacializado e mapeado, tanto do patrimônio material ou imaterial, como do desenvolvimento artístico ou mais particularmente, neste último caso, da infra-estrutura humana, institucional e material para o desenvolvimento das artes. Já que o poder público, entre nós, não tem (nem acho que virá a ter) cacife para reverter a inércia dos 0,0% de orçamento e de presença no imaginário coletivo, só uma parceria forte e de caráter direto e permanente com a sociedade, poderá mudar esse quadro. Daí a necessidade de conhecer, por inteiro, o esforço que a sociedade vem empreendendo. Sem essa parceria e mais visibilidade, a cultura sempre estará fora do foco dos principais debates. Será, quando muito, culpada do nosso atraso.

        Em resumo, o que eu acho que precisa ser feito, é um inventário participativo, tanto na área de patrimônio, quanto no desenvolvimento cultural. Que gere saldos educativos, já no seu processo de desencadeamento. Que mexa consistentemente, com o imaginário coletivo ... Que coloque a questão cultural, gradativamente, mais próxima do foco principal, das questões maiores da sociedade .... Para isso, é preciso conceber uma metodologia, para levantar, classificar e hierarquizar as informações. Mas talvez, aplicá-la de fora do setor público ... Por algum ente do chamado ‘terceiro setor’. A inércia (falta de iniciativas firmes) e o conservantismo clientelista, estão de tal forma encalacrados no setor público, que mantidas as atuais condições de temperatura e pressão, não há saídas visíveis, à médio prazo, para esse impasse.

        É possível também, que um processo destes, deva ser feito, do centro para a periferia, isto é, focado nos grandes e médios municípios paranaenses (10 a 15%, isto é, cerca de 50-60, inicialmente), já dotados de competências instaladas, que mais adiante, poderiam ajudar a disseminar esse processo complexo, por todo o território estadual; como decorrência até, de processos de responsabilidade social, antes referidos. Desenvolvimento cultural, em parceria com a sociedade, depende de garimparmos os parceiros, que não estariam na periferia e instrumentá-los melhor, nas técnicas específicas de cada atividade, no associativismo, no empreendedorismo e outras técnicas de gestão (pública e privada), de modo que consigamos multiplicar nossas ações, sempre numa perspectiva de desenvolvimento emancipador e buscando gradativamente, níveis crescentes de sustentabilidade.

        Isto tudo, pode ser classificado, de forma simplista, como ‘coisa de sociólogo’. Se essa classificação continuar dominante, estas e outras palavras, ditas até aqui, foram inúteis. Perdemos, eu e você, mais um pouco do nosso tempo precioso, tempo este, não do poder público, mas, pelo menos no meu caso, das nossas vidas. Com um grande abraço. Wilson.  PS. Ainda me considero ‘em férias’. Vi o trabalho de campanha, ontem na rua Senador Alencar Guimarães , com a praça Ruy Barbosa. Lá estavam o José Luiz, o Emílio Lima, o Prof. Altino, entre outros, em pleno agito das 18:00h. Vou me engajar nisto, mais adiante. Provavelmente, lá no Comitê Sanepar-Cultura. Soube pelo Renato, que o Moraes está novamente encarregado de coordenar o grupo de trabalho do ‘Plano de Governo’, para o próximo período. E que o próprio Renato havia sito designado para representar a área da Cultura. Boa sorte a ambos. Já vi esse filme. Tipo ‘O Vendedor de Ilusões’!

Observação final, de hoje, 07/07/08: não participei da campanha à reeleição do nosso Governador. O próprio me havia recomendado, num encontro que tivemos no nosso barbeiro: ‘fale com o Maurício’. Lamentavelmente, isto não foi possível, em tempo hábil ! Problemas de estilo, do irmão e meu ! Contudo, continuo com o maior respeito pelo nosso Governador !  Para ele, o 'me chama que eu vou', continua valendo.  Só não me interessa, qualquer achego direto, com a máquina pública !



Escrito por W. Pósnik às 23h07
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NOSSO DESLIGAMENTO DA SEEC (2) Continuação.

        Minha expectativa, na SEEC de 2002-03, era da mesma natureza. Muitos desafios e nenhuma pompa. Aliás, eu odeio isso: paletó, gravata, motorista, discursos,‘entourage’, ‘liturgia do cargo’ ... Meus vizinhos até passaram a me olhar ‘torto’ ... E com razão ... Hoje em dia, ao andar em carro oficial por aí, a gente se arrisca no mínimo, ser hostilizado ... Como eu te disse algumas vezes, além de eu ser um tanto quanto utópico (reflexos talvez, dos tempos da militância no ‘Partidão’ na universidade -1966-69, tempo em que conheci teu irmão ... ), tenho necessidade, como questão do dia-a-dia, da reflexão, do compartilhamento do meu conhecimento e da minha experiência acumulada, com a das pessoas, à minha volta. Conhecimento este, que no meu caso, em verdade é pequeno, mas que nas trocas com os companheiros de trabalho, mesmo estagiários (aliás, com aqueles que tenham o que dizer, aqueles que costumam ler algo mais que o Diário Oficial ou a ‘Tribuna’ ...), a gente soma e encontra o melhor caminho. Numa perspectiva colaborativa, de compartilhamento dos conhecimentos, talvez até ingênua .... Nada a ver, com rotinas operacionais ...

        Supuz que haveria, pelo menos, momentos dessas trocas, inclusive com você. Não necessariamente, com a tua participação direta, durante todo o processo. Mas que no mínimo, fosse permitido e estimulado algo assim. A ser, ‘nos finalmente’ submetido ao teu julgamento. Não foi o que aconteceu. Ou, pelo menos, eu nunca vi acontecer. É possível que estas reflexões só tenham se dado, com determinados setores da nossa clientela, nas quatro paredes do teu Gabinete – aliás, esse é um processo típico dos nossos ‘dirigentes culturais’, de uma maneira geral.  E ainda, quer me parecer que você odeia isso ... Tipo ‘reflexão acadêmica’ inútil... Provavelmente, na suposição de que quem está ‘no poder’, sabe tudo, ou mesmo, conta com uma delegação para fazer e acontecer ! Veja, por exemplo, a questão dos grandes problemas de comunicação interna, apontados naquele Seminário Interno: a idéia de um ‘boletim eletrônico’, foi avaliada por você (ou pela Sonia, supostamente em teu nome), como diletante. Seria uma forma de comunicação solidária ... Que ‘morreu na casca’. O Edson montou a coisa, em colaboração com a Elisa e a Cris e eu disse a eles, diante do quadro, que não seria o caso de colocá-lo no ar !

        Parece-me agora, vendo de fora esse ‘imbroglio’ todo, que você prefere as abordagens mais pragmáticas, do teu ‘esquadrão samurai’ (que não se permite, discutir com o mestre, mas apenas, concordar, subservientemente;  sabe como é: polaco ou espanhol, não fazem esse gênero !!!).  A esse grupo eu agregaria o Renato (podendo lhe ser recomendada uma operação plástica ‘no zóio’). As duas nipônicas são burocratas de primeiríssima linha, com as quais como você, tive uma convivência utilitária, por muito tempo ... Mas a quem não fica bem perguntar, o que elas leram, nos últimos 10-20 ... anos, sobre Educação ou sobre Cultura, áreas pelas quais ‘passamos’, eu e elas juntos ... E quanto ao ex-companheiro, acho que ele não tem vocação para historiador, na plena acepção do termo, por não ser um generalista. E ainda, não sei se por vocação, escolha ou excesso de tarefas diversificadas, foi assumindo gradativamente, uma posição burocrática, com relação à sua tarefa original (‘O Paraná da Gente’); e o resultado é bem conhecido: produtos, sem processo de sustentação e ainda, sem repercussão alguma, principalmente, nas comunidades locais. Esta situação foi construída, por iniciativa própria e/ou com o teu concentimento, uma vez que as outras contribuições dele, te agradavam sobremaneira. O que o levou a deixar de lado, ou em segundo plano, aquela tarefa, dita original.

        Nada disso aconteceu por acaso. Reflexões não são o forte na administração pública. Nela em geral, se tem as melhores oportunidades de treinamento e desenvolvimento técnico. Mas, quase nada se aplica, ‘na real’ ... Tais processos de desenvolvimento de RH são inclusive, feitos em momentos e contextos, totalmente deslocados das condições reais de trabalho ... Veja o exemplo daquele nosso Seminário Interno com o Luiz André (em 1991): embora tivesse um foco razoável, nada daquilo se aplicou, posteriormente. Da mesma forma, naquele Seminário Interno, no Hotel ‘Paraná Golf’, em 2004. Com uma agravante: aquele ‘cara’ da PUC que deu a palestra principal, era um autêntico ‘ET’: saiu do nosso breve convívio, mais perdido do que tinha entrado. Acho que isto envolveu, da parte dele, uma completa irresponsabilidade acadêmica e profissional. Não sabia nada da área da Cultura, nem do setor público - até parece que achou que a solução dos nossos problemas era ‘genérica’, transplantável do setor privado (que parece que ele também não conhece bem !) ... E aquela psicóloga (acho eu), indicada pela Sônia, que fez o ‘feijão com arroz’, de ‘aquecimento’/dinâmica de grupo, completou bem o quadro. Aquelas ‘brincadeiras’, para um grupo que já se conhecia e não se integrava, até por já se conhecer bem, foi ‘demais’ ... . Essas técnicas ‘americanóides’, de ‘aquecimento’ e redução da impessoalidade, problemas típicos das organizações anglo-saxônicas, não fazem nenhum sentido na nossa realidade. Aplicar essas técnicas, numa cultura já ‘quente’ e bastante informal, em termos das suas relações internas, têm até efeito contrário ao proposto. Passam até por ridicularização. Essa ‘transculturação’ é no mínimo, um equívoco metodológico, para não dizer, burrice. Modismo praticado à exaustão, nas organizações privadas, que ‘pagam bem’ por essa besteira toda ! Inadequado em termos culturais, para estas ... E que se poderia dizer, para o setor público ...

        Bem, mas eu falava de reflexão. Eu a fiz, durante mais de um ano, quase que sozinho. Convoquei umas 30 (trinta) pessoas, internas e externas. Diálogo quase inútil ... A grande maioria, não tinha posição alguma, com relação a políticas públicas da área. Muitos, só tinham restrição a esboçar ... Nenhuma proposta ... Falei até mesmo com a Vice-Reitora da UFPR, Dra. Maria Tarcisa ... Só valeu com o Elói Zanetti !!!  Que percebeu muito bem, a relação entre políticas públicas de cultura e comunicação.  No conjunto, a coisa foi bastante desalentadora ... Mas nada que me leve à desistir ... Poderia ser um processo menos demorado, se tivesse parceiros .... Acho, como eu já disse por aí, que no nosso setor público, em qualquer das suas esferas, por estranho que possa parecer, não se praticam políticas públicas de cultura. E pior, ninguém parece saber o que isso ... E dessa forma, não somos capazes de usar instrumentos culturais para transformação consistente e a promoção do desenvolvimento sustentado da nossa sociedade.



Escrito por W. Pósnik às 23h04
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NOSSO DESLIGAMENTO DA SEEC (1) - OU P'RÁ NÃO DIZER QUE NÃO FALEI EM FLORES !

        Para satisfazer à curiosidade de alguns ex-colegas de trabalho, da Secretaria de Estado da Cultura (do Paraná) e sobretudo, àqueles nossos grandes amigos da área ou do setor público, que deixamos por lá, vamos postar neste nosso espaço de provocação e reflexão democrática, o texto da mensagem que remetemos à Titular daquela Pasta, sobre as razões de nossa saída. Que para a surpresa dela e de todos nós, seis meses depois, ao final do mandato governamental, permaneceu no posto, durante o segundo mandato do nosso Governador. Surpresa, diríamos, porque ela tinha como opositores, alguns familiares ‘de peso’ do Chefe do Executivo. Mas, isso já são águas passadas !

        A idéia de torná-la pública, marca a data de hoje, quando já se passaram exatamente, dois anos do nosso desligamento daquele órgão público. As razões aparentes, estiveram associadas às críticas que fizemos, em documento interno de caráter pessoal - tornado público, em que tecíamos considerações e críticas, sobre os interesses e motivações de certos ‘próceres da classe artística’, acestados nalgumas instituições associativas do nosso setor cultural, nas suas tentativas de ocupar espaços de representação, nas várias frentes de discussão das questões culturais. Muitas vezes, adotando práticas viciadas de arregimentação, processos de discussão orquestrados. Para estes personagens e para suas claques, ficou e se passou a impressão, que fôramos defenestrados, pelas suas pressões subseqüentes. Enganaram-se.

        Como afirmamos inúmeras vezes, antes e depois do ocorrido, na área da Cultura, enquanto espaço de discussão e manifestação social, onde quase tudo é permitido, vive-se um clima democrático da maior permissividade, que vai desde questões relativas à orientação sexual dos seus integrantes, até à banalização da obra de arte, pela sua negação, como questão de pós-modernidade; quase tudo, como dissemos, é permitido, menos a mediocridade. As instituições culturais, públicas ou privadas, por sua vez, como espaços hierarquizados de representação formal, muito há que ser feito, pela sua democratização e representatividade social. Autoritarismo e mediocridade, em tese, diga-se de passagem, são dois elementos incompatíveis com os pressupostos teóricos, vamos dizer assim, mais comezinhos, de qualquer ação de desenvolvimento cultural. E nisso se centram mais fortemente, nossas razões para desligamento, expressas talvez, não com a objetividade necessária ao público em geral, mas com a suficiente clareza, aos destinatários imediatos da mesma, á época. Como a ‘peça’ é longa, teremos que parcelá-la. Vamos ao texto:

                                                                                                                           Curitiba, 19 de julho de 2006.

Prezada Vera:

        Remeto estas linhas, na suposição de consolidar várias tentativas de reflexão, que não prosperaram, por inúmeras razões, umas minhas, outras tuas; nestas últimas, a tua alegada falta de tempo. Tempo que pode talvez, ter tido problemas de distribuição mais equitativa, na eleição de prioridades de atuação, na escolha dos focos de enfrentamento de problemas ou ainda, decorrentes de outras variáveis desconhecidas ou mal interpretadas por mim, das vertentes exclusivas do universo feminino. Sempre classifiquei, genericamente (não sei se de forma politicamente correta), essa questão como ‘idiossincrasias femininas’; uma série de coisas que eu não conseguia entender, como os teus conflitos latentes, com a metade das mulheres do grupo. Com umas permanentemente; com outras, com foco eventual. Processo este, com toda uma dinâmica própria.

        Primeiro, acho que devo fazer minha autocrítica: a última missão burocrática que encarei por inteiro, foi em meados dos anos ’60, no então Departamento de Fazenda da Prefeitura de Curitiba. Atendia balcão e tinha que conhecer o conjunto das normas jurídico-burocráticas pertinentes, para repassá-las ao público, sobre a atuação da área. E ainda, prestava serviços internos, desta mesma natureza. Portanto, para o que você esperava de mim, eu não estava preparado. Foi um equívoco da minha parte, aceitar essas funções (embora, à época, eu não imaginasse a prioridade no ‘varejo’ e o grau de centralização das decisões, com que você iria atuar !). Desde então, nunca mais lidei com isso. Planejamento (por onde passei mais de 25 anos), sempre teve sua burocracia própria; talvez até, no setor público de hoje, reduza-se a apenas a isso ! Mas nada a ver com o grosso e o núcleo do formalismo burocrático do setor público - especialmente, das áreas da Casa Civil, Fazenda, de Pessoal, Previdência, Administração Geral ou Jurídica. Portanto, nesta função que você me atribuiu - outros companheiros foram consultados, a respeito de seus respectivos interesses – eu, positivamente, não, me dei bem ! Isto somado à divisão do trabalho, que foi sendo construída, desde os primeiros tempos, com você gradativamente, centralizando tudo, me dei mal, me tornei inútil ! É claro que a minha atitude, também contribuiu para isso ... Não devia ter aceito, com já havia feito antes, em ocasiões semelhantes. Nas poucas vezes em que você me mencionou, na fase de formação da equipe, sempre foi muito incisiva, ao me atribuir as funções que deixei recentemente, como eu te disse, com grande alívio. E eu, diante do quadro, deveria ter saído, um ano e meio atrás ou mais ... Mas, acho que sou também, um polaco teimoso ... E ainda não me dei por vencido ... Ou seja, continuarei focado nas questões do setor público da cultura, mesmo ‘solito’ !

        Como tenho dito há muito tempo, na administração pública, nenhuma tarefa me assustou ou assusta. Já exerci funções semelhantes, no Governo Álvaro, na Casa Civil e na SEAD (com o Gino Azzolini - antes dele ir para a Prefeitura de Londrina). Nesta última (SEAD), a burocracia geral era tratada pelo Erickson, a de pessoal pela Beatriz e eu atuava com uma espécie de Diretor Geral de fato, para os assuntos programáticos. Minha função seria de Diretor de direito. Mas o ocupante do cargo, pessoa ligada ao candidato a Governador de então, não poderia ser ‘removida’. Nesta época, respondi, em paralelo, pela Presidência do IPARDES (por alguns meses), por duas coordenadorias da SEAD e mais pela coordenação operacional da Reforma Administrativa, que o Governador queria fazer – que deu quase em nada, em face do boicote do Presidente do Legislativo, Deputado Aníbal Khoury. Discuti direto com o Governador, dezenas de vezes, a estratégia de atuação relacionada às tarefas assumidas. Inclusive me opus veementemente, à sua idéia de extinguir a SEPL. Depois disso, fui até convidado a assumi-la, após a exoneração do Prof. Magalhães – ‘culpado’ pelo Chefe do Executivo, da falta de planejamento no seu Governo, até aquele momento; e não aceitei ‘in limine’ – afinal, não achei que se tratava de uma tarefa relevante, até em razão dos antecedentes na questão, nem tenho vocação para ‘bode expiatório’ ! Foi um ano muito louco. Mas, com um forte sentido de realizações, inclusive pessoais ...

        Nunca me interessou poder, pompa ou circunstância. Apenas e tão somente, um conjunto de tarefas desafiadoras. E ponha desafio nisto. Depois que ‘passei’ o IPARDES para o Kiko (José Bernardoni Filho – posteriormente, Assessor Jurídico da SEEC - metido a ‘bater e arrebentar’), nos primeiros dias de seu ‘mandato’, embora na condição também de Titular da SEPL, o pessoal da então Fundação, fazia um autêntico ‘corredor polonês’ à sua descida pela rampa do Castello Branco, vaiando-o estrepitosamente. Não recebi tal tratamento, embora os tenha tirado de uma sede confortável (perto do ‘Operário’ – longe dos ‘olhos’ do ‘patrão’), por supostas razões de redução de custos com aluguéis e os colocado no ‘porão’ do ‘Castello’.



Escrito por W. Pósnik às 22h27
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PARA REFLETIR SOBRE O MUNDO DE HOJE !

Reforma, Metamorfose e Desmemoriação Por José Olímpio Bento in A BOLA, 12.07.2007, Lisboa (apud 'Blog do Juca', de Juca Kfoury', da mesma data).

Decidi ser pós-moderno e neoliberal. Ora isto implica não ter passado, esquecê-lo e recusá-lo. Não existem, portanto, nunca existiram, a casa pobre onde nasci, a aldeia ignota donde vim, o país de fome e miséria, opressão e escuridão em que cresci, a dura escola das letras e da vida que frequentei, os princípios e valores em que me criei, os ideais que acalentei, as lutas em que participei, as conquistas que testemunhei, os progressos de que beneficiei, o contexto cívico e ético em que me formei, a Universidade à qual me entreguei.

Sou reforma e metamorfose. Fica para trás, desmentido e desfeito, tudo o que acumulei, defendi e pratiquei ao longo dos anos. Tudo passou e está fora de moda: os ensinamentos dos livros, a história e a filosofia, a memória e a esperança, o direito e a política, as diferenças ideológicas e programáticas dos partidos, as convicções e utopias, os gritos de revolta e liberdade, as canções românticas. Estou a deitar tudo fora.

Tudo isso me apouca, aprisiona, incomoda e persegue. É um espelho de imagens que me desafia e agride a consciência e faz a vida difícil. Exige coerência, persistência, esforço e empenhamento e torna-me cúmplice da injustiça à solta. Eu não suporto isso. Quero mudar de rumo, não ter face nem identidade; embarcar na onda do deleite, do oportunismo, cinzentismo e comodismo. Trocar o apego à firmeza e defesa da verdade pela adesão à fluidez das conveniências. Quero estar do lado donde sopram os ventos e não encarar o monte de lembranças inquietantes e de compromissos assumidos nesta caminhada longa e grisalha. Uma a uma, quero apagar as imagens dos sítios por onde andei, as missões e causas que abracei. Não tenho espaço para tanto arquivo. Detesto o Outono e Inverno; quero viver sempre entre a Primavera e o Verão.

Também quero esquecer a cidade, as praças e casas, até porque já não existem de facto, demolidas que foram para dar lugar a bancos e outros templos do mercado e finança. Vou riscar da memória os cinemas, cafés, teatros, igrejas, clubes, campos de jogos e demais centros de convívio e tertúlia e, no seu lugar, registar as construções, estruturas e entidades que hoje esbravejam para povoar todo o espaço que nos separa do céu e para impor deuses superiores aos que foram meus.

Não retenho nada da infância; arranco molduras penduradas na parede do tempo. Não são mais quadros merecedores do meu apreço. Olho para trás e entranha-se em mim a sensação de estranheza em relação ao emaranhado de sentimentos que me levavam a pensar nos outros e a conter a indiferença, o individualismo e egoísmo. Morra o bem público e viva o interesse privado !

Agora que nenhum edifício resta na memória, eu não sei dizer o que sou e se existo, já que não me consigo ver a mim próprio. Só sei que não vou voltar para a casa antiga. Não quero saber de quem lá vivia e de como vai viver para além dela. Não quero saber que lá vivi, nem de quem não tem e nunca terá casa. Quero apenas evitar que as ruínas resistam ao meu projeto de desmemoriamento e teimem em avivar este sentimento de vazio ruim, o único que fica de todos os que ferem a minha carne e se atravessam no caminho de me libertar do passado.

Para o serviço da conversão ficar bem feito, reduzirei a cinza e nada toda a reminiscência que possa roubar tempo à decisão de me entregar, de modo acelerado, vistoso e confesso, à novidade e à criação da minha descomprometida condição de pós-moderno e neoliberal.

De professor passei a facilitador; não há mais lições para dar. Pertenço, de corpo inteiro, a esta sociedade incapaz de tudo, inclusive de notar as diferenças. Doravante a minha memória está limpa do que me ligava ao passado. De resto o que não se passou não pode ser passado; o que não sucedeu não pode ser lembrança. Sou expressão da desmemoriação. Oiçam bem: recuso, renego e abjuro o passado. Todo eu sou eterno presente, sobrevivo no limbo das inovações e adaptações permanentes. Desta forma reciclado, estou apto a subir no aparelho de Estado – ou noutro qualquer – e a aceder ao exercício das mais altas funções. Se assim o quiser a divina ou outra providência, eu vou longe.

Observação (nossa): Contribuição do melhor jornalismo esportivo, para a compreensão do que se passa à nossa volta, bem além dos esportes !



Escrito por W. Pósnik às 17h00
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DE FHC E DE OUTROS INTELECTUAIS !

      Nos ‘links’ que recomendados, listados na coluna ao lado, está a excelente publicação mensal britânica ‘Prospect Magazine’ (em inglês). O curioso da edição deste mês de maio, é uma eleição virtual dos ‘100 Mais’, entre os intelectuais mais influentes do mundo de hoje (vivos), disponível em         http://www.prospect-magazine.co.uk/intellectuals        Que aliás, todos podem votar !          

      Não é surpresa que o lingüista e ativista norte americano Noam Chomsky, seja o número ‘1’ da lista. A surpresa está na presença de FHC, entre os relativamente bem votados.  Achamos que tudo se deve à sua ‘competência performática’, na nossa ribalta política, nas suas viagens diletantes, na sua ‘pose’ de professor, de suposto ‘criador’ do Plano Real – evidentemente, pontilhada de falsidades – pólvora ruim, fraca e de muita fumaça !  Afinal de contas, muito do que lhe foi atribuído e que ele pregava nos seus livros, da sua ‘fase acadêmica’ – sobretudo com respeito às teses sobre o tal de ‘desenvolvimento dependente’, a sua ‘prática’ política renegou. Folclore à parte, o ‘esqueçam o que eu escrevi‘, que ele afirmou que nunca disse, na verdade tornaram sua ‘maneira de pensar’ - passado e presente, um emaranhado de sofismas oportunistas, cada um moldado para um determinado momento da sua ‘carreira’ ou contexto vivido.  Coisas, parece que do gosto deste público externo, o que permite a FHC faturar bons dólares em palestras pelo mundo ocidental afora, fazendo concorrência a velhos espécimes nesta labuta, como Henry Kissinger e outros, não tão velhos neste 'affaire', como Bill Clinton - dólares estes que 'enriquecem o currículo' destes 'intelectuais' de subúrbio. 

      Achamos que um dos seus principais ‘feitos’, foi induzir o ditador de plantão dos anos '60 a um erro - a sua ‘cassação’, isto é, a sua aposentadoria compulsória como professor da USP – ‘carimbo’ fundamental para qualquer carreirista - dito de esquerda, para se diferenciar do ‘status quo’ daquele regime. Isto o ajudou muito, a sair da obscuridade: virar 'Chanceler', Ministro da Fazenda, Candidato e depois, Presidente.  

      Analisar esse labirinto acaba por converter nossa exegese, nosso problema, num misto de análise da linguagem apoiado na álgebra.  Para bem entendê-lo, teremos que nos socorrer daquelas regrinhas, repetidas à exaustão pelos nossos velhos professores de matemática do colégio: ‘mais’ com ‘mais’, dá ‘mais’; ‘menos’ com ‘menos’, dá ‘menos’; sinais diferentes, diminui-se e se dá o sinal do maior .... Se ele nega o que disse ou mesmo, nega que tenha dito que negou o que afirmara antes, o que foi que ele disse mesmo ???  

      Pode uma coisa dessas ! Termos que usar um ‘ferramental’ como o sugerido, para entendermos o ‘pensamento do nosso grande intelectual’ (pelo menos, para os leitores do  'Prospect') ?  Pois é, apesar da ‘figura’ ter colocado tudo o que escreveu ou disse na academia, ‘no baú da história’, no esquecimento e assumido uma postura neoliberal (como um Fernando Collor ‘melhorado’, para o 'establishment' político), o público externo, parece ter ficado bem impressionado com a sua performance político-intelectual – é provável, justamente por esses seus arreglos neoliberais. Claro que, tal ‘público’ desconhece que o que lhe é atribuído, como principal feito, como proposta acadêmica original, na verdade não é de sua autoria, mas do seu parceiro, o economista chileno Enzo Faletto. Ou as suas posições de 'esquerda', motivo da cassação. Ou ainda, a autoria do Plano Real ... E precisa mais ?

      E ainda tem gente, neste País, que culpa o brasileiro comum, por espertesas, 'jeitinhos', malandragens e coisas tais ! Por essas e por outras, que durante esta sua 'fase performática', nós nos confessávamos ‘um sociólogo envergonhado’ !



Escrito por W. Pósnik às 18h31
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1990 - UM ANO MUITO LOUCO ! (2)

O ano de 1990, como já foi exposto em outro lugar, foi o ano em que o Governador do período, ao invés de desincompatilizar-se do cargo e se candidatar ao Senado, resolveu permanecer, em nome da garantia da eleição do sucessor, à época, do mesmo partido.

Essa permanência, também o levou a tentar uma grande guinada, de final de mandato; com a substituição de alguns auxiliares e remanejamento de outros. Entre os remanejados estavam o então Chefe da Civil, nós, Diretor Geral e um grupo de técnicos que atuavam por lá. Fomos deslocados para a Secretaria de Estado da Administração SEAD, hoje Administração e Previdência - SEAP. ‘Nosotros’, candidato a Diretor Geral ! Como o ocupante do cargo era ligado ao candidato a Governador e não seria remanejado, acabamos escolhendo outras funções. Antes de nossa escolha, nos foi oferecida a Diretoria de Recursos Humanos – DRH, a qual não aceitamos, de pronto ! Havíamos prometido para nós mesmos que RH nunca mais ! Já antes desta época, tínhamos renegado nosso passado, de oito anos na área. De modo que, nestas condições, fomos para a área de Administração Geral daquele Órgão.

E aqui começa, uma espécie de ‘maratona de 200 Km. em 11 meses’. A idéia era ‘botar p’rá quebrar’. Resolver quase tudo o que não se tinha resolvido, nos três anos anteriores e marcar a permanência do Governador no cargo ! A partir de então, passamos a responder por duas áreas da SEAD (CAS + CRA), esta última, em fase de extinção, com muitos servidores sem tarefas definidas. Também respondíamos, junto ao Secretário, pela coordenação operacional da Reforma Administrativa, que o Chefe do Governo pretendia realizar e cuja Coordenação Geral estava atribuída ao próprio Titular da Pasta. Neste ínterim, o Governador resolveu substituir o Titular do Planejamento, que também acumulava a Presidência do Ipardes. O Titular da SEAD então, passou a acumular o cargo e nós fomos designados para a nosso quarta atribuição formal paralela: a Presidência daquela Fundação ! Foram tempos muito loucos, mas de muita realização.

Na Reforma, havia questões de remanejamento físico de órgãos, arrecadação de excedentes de veículos, levantamento de pessoal disponível, entre outras providências. Muitas medidas drásticas, que o Chefe do Executivo estava com o firme propósito de tomar, inclusive pelo impacto político favorável que teriam. Trabalhamos no dia 1º. de maio, para sinalizar a ‘blitz’. No remanejamento de órgãos, era necessário retirar a Defensoria Pública do velho ‘Castello Branco’ (hoje, Museu Oscar Niemayer) e colocá-la na rua Mal. Floriano, junto ao DER. Lá, estava a então Sucepar, entre outros ‘ocupantes’. E transferir o Ipardes, que estava no Alto São Francisco, para o Castello.

Como era de se esperar, todos só sairiam dos tidos como ‘seus lugares’ na prática, arrastados ! Depois de muitas reuniões, discussões e negociações sem nenhum resultado, providenciamos emprestados, três caminhões da Ceasa/Pr. Carregamos ‘as tralhas’ da Defensoria e despachamos para o lugar onde ainda estava a Sucepar. A ‘mudança’ chegou e foi mantida nos caminhões, por um dia ou dois. Como a Ceasa pedia a devolução dos caminhões, tudo teve que ser descarregado, no pátio interno do DER. E até que a Sucepar saísse, a ‘mudança’ permaneceu ao ar livre, coberta por lonas. E choveu no período. Quanto aos servidores da unidade removida, nem saberíamos dizer o que era feito deles, durante o período em que seus ‘apetrechos’, estavam ao relento. Acho que ficaram como aqueles animais de estimação, quando caem da mudança - 'perdidos' ! Ou o mais provável, cofortavelmente, nos seus escritórios particulares.

Olha ! Pareciam até medidas dos tempos da ditadura ! A mudança do Ipardes para o Castello, também foi penosa. Ninguém da instituição, aceitava trabalhar no ‘porão’ – aliás, todo o prédio era muito mal visto. Promover essas medidas drásticas e ainda, responder pela sua Presidência, não foi uma tarefa fácil – ‘pari passu’ às demais tarefas recebidas. Acho que ficamos à época (não só nós !), terrivelmente mal vistos, por quase todos os servidores da Fundação. Acrescido ao fato, no conjunto das medidas, de ter sido produzida uma lista de técnicos dispensáveis – fundamentada nas próprias percepções internas daquela Instituição. Lista que acabou não sendo aceita, para efeitos de disponibilidade desse pessoal a outros órgãos, pela área de RH da SEAD – que exigia a aceitação formal, de cada um dos listados. Depois de ‘rotulados’ de dispensáveis, pelos próprios companheiros, esses técnicos voltaram às suas antigas funções ! Situações que se tornaram rotina e eram tratadas com naturalidade, como ‘ossos do ofício’ ! Tudo em nome da redução de custos, racionalização de processos operacionais e de gestão e melhoria da articulação da ‘máquina’. Mas, o pior ainda estava por vir: logo após a saída do Ipardes daquele vistoso prédio do Alto São Francisco, ali próximo à Sociedade Protetora dos Operários, por supostas razões do Governo, de redução de custos com aluguéis, a Corregedoria da Polícia Civil instalou-se no mesmo local ! Nem é preciso dizer da insatisfação geral dos desalojados !

‘Despachos’ de rotina ou discussões dos assuntos relacionados às quatro tarefas sob a nossa responsabilidade, só eram possíveis, durante os deslocamentos pelos corredores ou dentro de veículos. Até no banheiro, lavando as mãos ... Aliás, gesto simbólico ! Nunca trabalhamos tanto ou sofremos tantas pressões, ao mesmo tempo. E ainda existe muita gente por aí e a mídia é unânime em reverberar, a imagem de que servidor público trabalho pouco. Acho que é coisa do imaginário carioca, dos anos 1950-60, da ‘Era do Rádio’ e do programa semanal ‘Balança Mas Não Cai’, da ‘velha’ Rádio Nacional do Rio de Janeiro – Brasil, como era o seu bordão à época ! Que parece ser ainda verdadeira, entre os cariocas: não procure ninguém, na sua repartição pública, antes das 11 da manhã !



Escrito por W. Pósnik às 21h00
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DA 'FESTA DA MATANÇA' OU DO 'PIXEIRÃO' FAMILIAR !

     Há uma tradição germânica, a ‘SlachtFest’ - Festa da Matança, festança popular que é parte do calendário turístico de cidades brasileiras onde é importante a presença desta etnia; também em clubes sociais e até mesmo, como tema de coreografias de grupos folclóricos.  Contudo, o que pretendamos narrar esteve relacionado a uma prática da família de nossos avós, pai, tios e tias, como um mutirão familiar para matar porcos – nada a ver com uma festa, mas com uma reunião familiar, de trabalho !. 
      Num texto de um ‘Causo’ anterior, mencionamos ‘negócios’ envolvendo vacas e porcos. Criar um ou dois porcos, além de aves diversas, de pombos a perus, era parte do cotidiano do nosso avô polaco, Ignácio.  No espaço próprio da sua propriedade, no Bacacheri, havia o ‘chiqueiro’;   com um ou dois porcos – no caso de dois, de idades bem díspares, de modo que os sacrifícios fossem, a intervalos compatíveis com o consumo dos produtos gerados.
      Era um ‘programa’ planejado com bastante antecedência – a não ser que o bicho passasse por alguma emergência, do tipo fratura. O ‘coordenador geral’ da operação era nosso pai, Stefano, que quando jovem, teve seu primeiro emprego, numa empresa do bairro chamada ‘Frigorífico Bacacheri’ – cujo proprietário era um certo Conrado Bonn. Ficava na região onde é hoje o bairro ‘São João’. Por estes antecedentes, ele conhecia bem a matéria. Pudemos observar o processo todo, algumas vezes, nos nossos 7-8-9 anos.  Passava-se o sábado e o domingo, às voltas com a tarefa; que envolvia grande parte da família – especialmente os moradores com nossos avós - tios, tias, solteiros ou ex-casados, primos e eventualmente, algum agregado, da tripulação do velho ‘Chevrolet Tigre’, dos anos ’30, de estimação do ‘seu’ Ignácio. Com que ele ‘ganhava a vida’, prestando serviços a colonos polacos, nos arredores de Curitba e na Colônia Muricy, em São José dos Pinhais. Seus negócios eram a compra e venda de terra preta, cinza (usada como adubo), esterco, serragem e outros detritos orgânicos, usados no preparo do solo para as culturas de olerícolas da região. Eventualmente, outros materiais, como caliça e remoção de entulhos.
      Mas o nosso foco é a ‘matança’: os porcos que chegavam a este estágio, eram enormes – muitas vezes, nem conseguiam ficar em pé ou andar;  ou mesmo, sofriam fraturas, pelo excesso de peso. As providências começavam cedo – com nossa avó preparando previamente, (1) grandes quantidades de água fervente, para ‘depilar’ o bicho. A logística da operação, incluía (2) o preparo do local – bancada de trabalho, ‘sarilho’, para suspender o animal - depois de sacrificado, instrumentos de corte, afiados previamente, máquina de moer carne e ‘instalação de água corrente’, para a limpeza. Com tudo já preparado, vinha  (3) o sacrifício propriamente dito – feito com uma marreta de ferro, de cerca de 5 kg., que era ‘aplicada na testa da vítima – que às vezes, por excesso de gordura na região, tinha que sofrer vários golpes, até ‘desmaiar’ ou desfalecer. Caso não morresse, lhe era aplicada uma faca pontiaguda, direto no coração. O próximo procedimento, era (4) a ‘depilação’, feita com a água fervente e um raspador, de forma cônica, de folha zincada, com a extremidade inferior bem afiada e a superior, com uma pequena abertura, pela secção de cerca de uma polegada, do vértice do cone. Esta abertura, ajudava a produzir um som bastante peculiar, da raspagem dos pelos.  Esse instrumento era semelhante, na forma, àqueles, grandes rolos de fio 'industrial', cônicos. Quanto aos pelos, fossem pretos ou 'ruivos', nunca fiquei sabendo, se teriam alguma aplicação ...
      Terminada essa etapa, o porco se apresentava, quase todo branco, ‘pálido’ ... Na seqüência, (5) era preparada a suspensão do animal: amarravam-se cordas, inseridas nos tendões das patas traseiras; duas cordas, a serem atadas a uma espécie de haste de balança em madeira, de modo que as pernas ficassem separadas, em cerca de meio metro. A (6) sangria, por sua vez, poderia ser feita após esta ‘meia suspensão’ do bicho, já sem pelos, ou como complementação do sacrifício, se as pancadas não dessem resultado. Antes da elevação, havia ainda (6) a evisceração, ou retirada das vísceras; praticamente tudo seria aproveitado de alguma maneira. ‘Limpo’, isto é, eviscerado e lavado, ele era finalmente, elevado, pelo sarilho, até ficar na vertical, com a cabeça a cerca de 50 cm. do piso. A tarefa a seguir era (7) serrar o corpo, ao meio - seção longitudinal, com um instrumento manual; só a cauda, já que o coração havia sido retirado antes, deveria diferenciar um lado do outro.
Após essa secção ao meio, começavam a ser feitos, com serra ou facas, os demais cortes: ‘quarto’ trazeiro, partes dianteiras, cabeça, pés, pernis, ‘costeletas’, ‘bistecas’ - estas serradas, uma a uma, de ambas as laterais da porção principal da sua coluna vertebral e outras partes, menos nobres.  E ao final, se fazia (8) a separação das carnes da banha – esta então, colocada em tachos, para derreter e ser armazenada em latões.
      Enquanto ‘rolavam’ estas tarefas externas, as mulheres da casa, preparavam os subprodutos cozidos, os quais teriam como resultantes, os ‘embutidos’; as tripas eram lavadas e viradas ao avesso, para receber depois, no seu interior, a lingüiça, os vários tipos de salames (que seriam pendurados, para ‘curar’, durante meses); e ainda ‘chouriço branco’ – vísceras várias, cozidas, sem sangue, ou o ‘chouriço preto’, com sangue - iguarias ests, também conhecidas nas suas variações regionais, como ‘sarrabulho’ ou ‘sarapatel’); e ainda, ‘queijo de porco’, toucinho, charque etc. etc.
      A ‘finalização’ dos embutidos era feita pelos homens, sempre sob a coordenação nosso pai, com a (8) moagem das carnes, para a lingüiça e os salames, bem como o seu tempero; ambos eram feitos com partes mistas, limítrofes de carne e banha, misturadas e processadas em máquina manual; instrumento semelhante às velhas máquinas domésticas a manivela, só que de maior porte. A mesma máquina, com implementos próprios, era utilizada para ‘encher lingüiça’ e os demais embutidos.
      O ‘serviço’ só estava completo, quando todo o processamento, a limpeza do local e do ‘ferramental’ haviam sido concluídas;  isto às vezes, ía até lá pela noite de domingo – tudo dependia do tamanho da ‘equipe’ e do bicho. Parte do produto, era aplicada na ‘remuneração’ da equipe 'externa’ (os que não moravam com nossos avós), parte vendida, como ‘excedente’ e cerca de 70%, armazenada e aplicada na subsistência familiar. Um mutirão, que vimos acontecer algumas vezes. E que fez a dispensa familiar, ‘engordar’ sobremaneira, por um bom tempo ! Coisas que os jovens de hoje, acham que é produto de alguma ‘abstração’ metafísica – tipo leite em saquinhos, já pasteurizado, sem nenhuma relação com vaca ou cabra !



Escrito por W. Pósnik às 16h01
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DE OUTRO SUBÚRBIO E DE OUTRA VACA !

      Já comentamos brevemente, sobre a vaca do seu Alberto e da D. Carlota Klamas, pais de Marina Klamas Taniguchi, que viria ser muito tempo depois, a Primeira Dama da Cidade – mas que há anos, abandonou este último apodo asiático. Vaca essa que nos abasteceu de leite 'in natura', por alguns anos. O fornecedor seguinte, foi o seu Brindarolli, que aliás, tinha várias espécimes.  Na vida dos subúrbios, da Curitiba dos anos 1950, isto era perfeitamente possível. Até porque como mencionamos, ao lado da casa daquela família, havia um terreno grande, de uns quatro lotes urbanos, cercado de arame farpado, que chamávamos de ‘potreiro’.

      Nosso saudoso avô polaco - Ignácio, também tinha uma, só que no Bacacheri – proximidades do Aeroporto. Lá não havia a facilidade citada – de deixar a vaca ‘pastando’, num campo perto de casa, e ainda sob o olhar do dono !   Diariamente, o bicho tinha que ser levado, por alguém da família (que era numerosa), há uns 600-700 metros de distância, para um cercado próximo ao dito aeródromo. E lá ficava ela sozinha, meditativa, a pastar e a ‘curtir’ a paisagem bucólica do lugar. Isto embora houvesse um enorme terreno ao lado, que inclusive interrompia a rua Nicarágua, onde ficavam as torres de rádio da velha Panair, tratada à época pelos ‘nativos’, como ‘Pa-na-hiiir’ – local no entanto, proibido para qualquer ser vivo.

      Ocorre que o cercado distante, também de arame farpado, não era abrigo seguro, não tinha boa conservação. E às vezes, a ‘mimosa’ evadia-se do local, ou mesmo, tinha sua fuga facilitada por algum ‘sacana’ das redondezas – para o desassossego geral da família. Nosso primo Luís Carlos, responsável primeiro pelo assunto, ao cair da tarde, ia buscá-la no local de sempre. Quando não a encontrava, fazia uma busca mais acurada, pelas imediações; alguns quilômetros quadrados, entre um capoeiral de uns dois metros de altura. Coisa difícil. Muitas vezes a achava, depois de algum tempo.

      Quando não a encontrava, voltava para casa, para reunir um ‘esquadrão de busca’, com todos os disponíveis – de 4 a 6 pessoas; exceção feita à nossa avó Maria, que não se envolvia nestas tarefas. Nos finais de semana que eu estava por lá, também era ‘convocado’ ! Na percepção de nosso avô, a vaca era de todos e cuidar dela era parte importante dos encargos familiares.

      O resultado dessas buscas era bem variado: às vezes, ela era achada, sem muito esforço, mesmo que distante do local original. Outras vezes não. Nestes casos, quando muito, tinha-se a informação de ela havia sido ‘presa’ pela Prefeitura; podia ter sido 'roubada'; ou que ela havia sido ‘retida’, por ter entrado em ‘território militar’. Aliás, as cercas de arame dos fundos das unidades militares, próximas de onde é o hoje o ‘Jardim Social, também não eram objeto de muito cuidado. Por isso, não constituíam obstáculo sério, no meio do matagal inóspito. Aliás, a vaca nem sabia que estava atentando contra a ‘segurança nacional’ nos seus passeios. Muitas vezes, outro ‘sacana’ - sabem como é que os polacos eram tratados - facilitava sua entrada, ou até colocava o bicho para dentro da cerca do quartel e a ‘pobre’ acabava retida, até o responsável aparecesse ... Nestes casos, só o nosso avô poderia resolver ... Sempre com algum prejuízo, em multas, taxas de ‘manutenção’, de remoção, propinas etc. e tal. Ainda com a agravante: ela vinha sem leite ...

      A dita cuja era um ‘personagem’ importante, no dia-a-dia familiar. Só era descartada ou aposentada, em último caso, quando já não dava mais leite, estava muito velha, ou doente ! Ou às vezes, como objeto de algum bom ‘negócio’ – trocada por outra mais nova ou por porcos ! E tinha mais: quando ela voltava ‘ao lar’, se havia roupas no varal, se nossa avó ou as meninas de então (nossas tias) estivessem desatentas, a bendita as mastigava e em alguns casos, engolia os trapos ... Para o desespero geral ... Menos para o nosso avô, conhecido nas redondezas, como ‘Inácio Bigodudo’, que não estava nem aí com estas coisas. Em casa, nas horas vagas, a atender as demandas por dinheiro, puxava a sua 'guaiaca' para frente, abria e fornecia o numerário solicitado. Sempre circulando pela casa ou pelo quintal, a dar as ordens aqui e ali, enquanto picava o fumo, no preparo do seu indefectível cachimbo !   Naquela pose característica, de quase todos os ‘cachimbeiros’ experientes !   'Velhos' tempos !



Escrito por W. Pósnik às 18h42
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VERDADES & FANTASIAS II: NOSSA SAÍDA DA SEEC (2).

      Bem, aqui cabe um parêntesis: há neste processo, alguns elementos típicos do relacionamento entre mulheres. Estas, em maioria no grupo, nas suas relações inter-pessoais, sempre se apresentavam divididas, em duas ou mais alas. Nós, como integrante do grupo e observador privilegiado, nem sempre pudemos entender o por quê disso. Acrescido do fato da Dirigente principal, aparentemente, ‘aproveitar’ essas divisões. De forma que, sempre havia, em estado latente, um conflito com algumas ou com a metade das suas subordinadas diretas. Que nós, em alguns momentos, ingenuamente, diga-se de passagem, tentamos intermediar,  ‘apaziguar’, sem nenhum sucesso. Com o tempo, deixamos de tentar compreender ou interferir nesse fenômeno; passamos a tratá-lo sob o rótulo, não sabemos se ‘politicamente correto’, de ‘idiossincrasias femininas’. Coisas que envolvem relações de poder, posições relativas nos grupos,  subgrupos, estilos de gestão - dependência ou independência de atuação de algumas delas. Em última análise, personalidades fortes e independentes, em choque, com um estilo centralizador, autoritário e auto-referente do Dirigente principal.

      Por outro lado, nunca nos apeteceu, permanecer dentro do ‘Gabinete’, por horas a fio, sem resolver absolutamente nada de relevante. Em meio a telefonemas, a inúmeras pessoas que entravam e saíam, ‘despachos’ burocráticos, sempre prioritários, sem nenhuma disciplina.   Pelo menos do nosso ponto de vista, esse dia-a-dia ‘atribulado’ no Gabinete, nada mais era do que uma espécie de processo de fuga da realidade;  preenchido, com ‘ativismo’ burocrático acrítico !  As prioridades eram quase que exclusivamente operacionais e as discussões de filosofia de trabalho, estratégia de atuação, políticas públicas e coisas tais, deixadas para depois !   Sempre, para ‘outra oportunidade’ !!!

      Por isso, quando surgiu uma motivação qualquer para sair, não vacilamos. Havíamos escrito um documento interno, na nossa eterna e inútil ânsia de estimular discussões, que distribuímos entre as chefias, pela rede local da Instituição.  Deixava clara nossa posição, inclusive citando nomes, de mentores de supostas organizações da sociedade civil, que na nossa  percepção, eram muito mais motivados por interesses pessoais, do que grupais ou ‘da categoria’, nas suas tentativas de monopolizar as relações estado-sociedade, ou pressioná-lo por recursos.  Posição com a qual nos mantemos, exatamente nos termos originais. O documento ‘vazou’, através de funcionária do Museu Paranaense e chegou até as pessoas mencionadas, causando um certo mal estar, entre a ‘Classe’ (ou seus supostos representantes – aliás, os mesmos do ‘Comitê’ concorrente, de antes das eleições), o Governo e a Titular da Pasta. Assunto para uma visita urgente do Vice-Governador à SEEC, para avaliar a ‘crise’. Nossa primeira reação, a partir de ‘conselhos’ imediatistas vários, foi fazermos uma retratação – reação equivocada, a bem da verdade. Alguns dias depois, re-avaliada a situação, achamos que era o momento de deixar o grupo. Afinal de contas, nossas funções originais vinham, já de longa data, sendo esvaziadas. Na verdade, fruto de discordâncias na essência, do que deveria estar sendo feito. ‘Teimosias polacas’, haviam levado as coisas até aquele ponto !

      Em face dessas nossas insistências sobre estratégias de atuação, acabamos até por fazer um seminário interno em 2005, fora do ambiente de trabalho.  Num hotel da Região Metropolitana de Curitiba.  Que acabou sendo um conjunto de ‘brincadeiras’ para integrar um grupo, como se fosse o início de uma relação de trabalho, o que não era nosso caso .... Sem nenhum resultado prático ... Esse caminho, das práticas e do exercício democrático prévio às decisões, não era, nem nunca foi o caminho ‘oficial’. Creio que até, pode-se assim dizer, era um caminho odiado – imagem própria e que completa, o que nós passamos a classificar genericamente, como ‘idiossincrasias femininas’, por absoluta impossibilidade nossa, de entender o que realmente se passava, ou mesmo, quais eram as motivações para os conflitos latentes, sempre presentes.  

      De modo que, nossa saída da SEEC, retornando à nossa condição de ‘aposentado’ do Serviço público Estadual, nos permitiu um pouco de paz e a possibilidade de retomarmos muitas das nossas reflexões, largadas ‘pelo caminho’ !   Principalmente, sobre a razão da existência e o funcionamento desse tal de ‘aparelho-de-estado’, ainda tão pouco compreendido. E o papel da Cultura nele, muito mais obscuro ainda !  Tempos neoliberais ? Ou ciclo de mediocridade ?

 



Escrito por W. Pósnik às 15h11
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VERDADES & FANTASIAS II: NOSSA SAÍDA DA SEEC (1).

      Como foi dito no texto ‘Verdades I’, botávamos muita fé nas possibilidades de retomar o processo de inventário do patrimônio cultural, chamado ‘O Paraná da Gente’. E essa foi nossa  motivação maior ao voltar. Voltar, sobretudo, a nos iludir !  Pois, conhecíamos bem os mecanismos dominantes no ‘aparelho’.  A nós foi atribuído o cargo de ‘Diretor Geral’, o segundo na hierarquia da Instituição. Sem que nos fosse feita nenhuma indagação ! Na verdade, não era bem o que estava no nossos planos !  Conhecíamos bem as funções, embora não fizéssemos o gênero do burocrata típico, nem ansiássemos por pompa e circunstância.  Porém, achávamos que com o tempo, isto é, no andar da carroça, as ‘melancias’ se ajeitariam melhor, na busca ao nosso objetivo  maior – outro engano !

      Logo ao início do período, o discurso técnico-político, elaborado antes das eleições, com o qual havíamos nos envolvido fortemente, foi sendo deixado de lado, foi sendo esquecido. Coisas aliás, absolutamente normais, nos inícios dos trabalhos de cada período – quando as equipes assumem cada área e começam a perceber que ‘realidade’ e sonhos de mudanças, são coisas de galáxias políticas extremamente distantes e diferentes ! Ou mesmo, discurso políico 'enganador' deve ser descartado !

      Decorrido o primeiro ano, onde prevaleceram os ajustes internos, a adaptação do grupo de pessoas colocado nas posições-chave da estrutura formal e o aprofundamento do conhecimento da realidade concreta da área, para muitos dos seus integrantes e ainda,  o reconhecimento das estruturas sociais e de poder, com que a organização teria que interagir, o quadro foi ficando mais claro, começou a ‘cair a ficha’ !  Outros meses se passaram e foram se aclarando melhor os caminhos, as restrições, os perfis das pessoas e o que efetivamente se pretendia fazer, por parte de quem estava ‘escalado’ para tomar decisões !

      Nossa aversão às prioridades burocráticas, foi se acentuando. Embora, em tese, nos estivesse claro, que face às funções assumidas, nosso papel seria predominantemente operacional. 

      Contudo, sobrava a questão: quem faria o planejamento estratégico da Instituição ? Para onde o nosso ‘Titanic’ estava se dirigindo ?   E aos poucos, fomos nos convencendo, definitivamente, que isso era uma questão extemporânea, supérflua, descabida, despropositada.  A prática do dia-a-dia, do processo decisório da organização, demonstrava muito concretamente, que todo o tempo disponível, para ‘despachos internos’, ia sendo preenchido, por decisões burocráticas, ou ‘burocratizadas’, ou seja, todas vertidas em papéis simples, de menos de uma lauda, que passavam a ser analisadas, discutidas e ‘decididas’, ‘às pilhas’ e durantes horas a fio, tomando sempre, todo o tempo disponível, do Dirigente principal.  Exageros à parte, isso passou a ser inclusive, uma espécie de refúgio, para assuntos internos ou externos, tidos como desagradáveis; inclusive, os meus ! 

      Diante do quadro, a nossa aversão, foi assumindo foros de exclusão, tanto por nossa iniciativa, que julgávamos pura perda de tempo, passar horas, na companhia do ‘núcleo duro’, vendo o desfile interminável de papéis, entra dia e sai dia, entre uma viagem e outra !  Não participar disto ou ser dele excluído, foram duas vertentes de um mesmo fenômeno, ‘mutuamente exclusivas’, como se diria em matemática.

      Espaços para reflexão interna, nunca eram oportunos; nunca havia tempo disponível, para tais ‘veleidades diletantes’. Afinal, a carga de trabalho operacional, era e sempre foi por demais, ‘absorvente’. 

      Sempre supuzemos que um processo de descentralização, por menor que fosse, era saudável.  Não que passasse pela nossa mente, alguma sede de poder. Mas o que ficava absolutamente claro, é que o processo decisório, totalmente centralizado e dependente de uma só pessoa, não tardaria a se estrangular. Com o risco de se tornar exclusivamente burocrático, por força dos hábitos, o que na verdade, não tardou acontecer.  É claro que, para quem não tinha a mínima noção do que sejam políticas públicas, isto nem foi tido como um risco .... ‘Tocar’ a área da Cultura, como se fosse o ‘Protocolo’ ou o ‘Almoxarifado’ de uma área de Administração Geral, por exemplo, para esse ‘núcleo duro’, nem envolvia  qualquer impropriedade metodológica .... Bem, ‘analfabetismos funcionais’ em humanidades à parte , o quadro era perverso .... Não muito diferente, quero crer, da realidade do MinC, de outros estados ou de muitos municípios, onde o escolhido para ‘tocar’ a Cultura, muitas vezes, nada mais é do que o ‘festeiro mor’ do lugar  ....  Com isso tudo, nossa presença se tornou, gradativamente, incômoda, supérflua e inútil, acho que até perturbadora, sob o aspecto político interno ....



Escrito por W. Pósnik às 15h07
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VERDADES & FANTASIAS I: NOSSA VOLTA ÀS LIDES DA CULTURA (2002).

      Em meados de 2002, fomos convidados a fazer parte do grupo de pessoas, ligadas ao PMDB, que iria formular e discutir as propostas para a área da Cultura, com vistas a incorporá-las ao ‘Plano de Governo’ do período 2003-06. Reuníamo-nos num casarão da Praça Osório, onde fora anteriormente a Cultura Inglesa e onde estava instalado o ‘Comitê da Mulher’ da Campanha.

      Já na fase inicial das discussões, antes das eleições, ocorriam coisas estranhas, como a existência de outro grupo, instalado em local diverso, ‘tocando’ os mesmos objetivos. Este, intitulado ‘da Classe Artística’ e o primeiro, das ‘Mulheres’, tendo a futura 1ª. Dama como presença constante mas, ligado politicamente ao postulante ao cargo de Vice-Governador.

      Para deixar claro, o espaço marginal ocupado pela Cultura neste e noutros contextos, quando esses dois grupos desencadearam seu trabalho, de início politicamente concorrentes, mas ao final, compostos entre si, as linhas gerais do ‘Plano de Governo’, já estavam ‘fechadas’. Ou seja, para elaborar o ‘Plano’, os responsáveis pela tarefa, não viram necessidade da participação de ninguém da Cultura. Foi por uma ação reativa a esse fato, que os dois grupos se instalaram e aquele, com a presença da futura 1ª. Dama e apoio do então candidato a Vice, acabou aceito formalmente, no grupo e na missão maior do Partido.

Mas, isto são apenas coisas do contexto. O que importa, e que nos interessa expor aqui, é a nosso início de trajetória de 4 anos (começado em meados de 2002), como parte do grupo que assumiu os destinos da SEEC.

      Nossa experiência anterior na área havia sido muito rica, especialmente nos dois últimos anos do período 1991-94, quando iniciamos, o já bastante mencionado, inventário do patrimônio cultural ‘O Paraná da Gente’; com significativa participação de inúmeras comunidades locais, pelo Estado afora. Tal inventário visava sistematizar o núcleo de um processo de resgate da nossa história e memória. Essa participação da sociedade afigurava-se como fundamental, para o resgate de elementos representativos da história local e regional, a discussão ampla da sua representatividade e ao mesmo tempo, pela geração de saldos educativos, que constituir-se-íam nos elementos básicos, nos alicerces de um processo permanente de preservação descentralizada, que estava sendo buscado.

      Ocorre que o inventário só começou a tomar corpo, ao final do período de governo e sua continuidade e complementação, acabou abandonada pela gestão sucessora. Embora nós tenhamos permanecido na área e insistido veementemente na sua continuidade, com desgastes inclusive pessoais, não tínhamos uma relação pessoal ou política consistente, com as pessoas que passaram a estar no comando. Além disso, instalou-se uma ‘briga’ entre duas áreas e respectivos responsáveis, pela continuidade da tarefa. Com isso, deixamos de insistir nesta questão, que também pelo desinteresse dos dirigentes principais, acabou sendo temporariamente ‘arquivada’.

      A possibilidade de retomada dessa utopia transformadora, oito anos depois, nos motivou muito. Como continua a motivar, mesmo hoje, quando estamos definitivamente fora do aparelho-de-estado, por decisão própria. Tudo parecia caminhar para o resgate daquele processo, que foi pontilhado de situações quase que épicas: dezenas e dezenas de pessoas, usando seus próprios recursos, seu tempo livre, para trabalhar voluntariamente no inventário, por indicação das municipalidades. Remetiam seus resultados, sem se desligar da idéia, aguardando e cobrando constantemente, pelos próximos passos.

      Para nós, foi uma utopia que poderia ser reiniciada a qualquer tempo. E que só poderia acontecer na área da Cultura, onde o dia-a-dia de uma autêntica intervenção de política pública, é pontilhado de inovações e ousadias ! Na nossa maneira de ver, essa era a matéria-prima fundamental, por seu potencial mobilizador, capaz de catalizar transformações maiores na sociedade. Talvez, estivéssemos enganados. Mas, e a ‘Pastoral da Criança’ ? Bem, se é possível uma mobilização desse calibre pela criança, como diz a Dra. Zilda Arns, com cerca de 160.000 voluntários, achamos que também o é pela Cultura ! A possibilidade de encontrarmos um ‘élan’ próprio para a área foi e é igualmente, na nossa percepção, perfeitamente possível !



Escrito por W. Pósnik às 11h01
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NÓS, OS GANDULAS DO BAIRRO !

      Lá pelo início dos anos 1950, nosso Hugo Lange, pouco antes, chamado de ‘Vila Russa’, tinha poucos moradores, poucas casas, poucas ruas abertas. Transporte, até o final da década anterior, só os bondes no Juvevê, ou os ônibus, no Alto da Rua XV, nas imediações da Ubaldino do Amaral. Uma distância de uns 2 km.  A maioria dos poucos moradores eram ‘russos’, mas falavam alemão. Coisas da dinâmica da geopolítica européia: provavelmente, esses alemães quando imigraram, traziam passaporte russo. Coisa parecida com os árabes ‘turcos’.

      Em torno dos anos de 1951-52, começaram a circular lotações, pela rua Augusto Stresser. De motoristas autônomos, dentre os quais, os mais famosos eram o Cornelsen e também o depois empresário do transporte urbano e Deputado, Erondy Silvério, já falecido. Comprava-se tudo, no armazém de secos e molhados, do ‘seu Juca’ (José Bonfim de Alcântara), ou do ‘seu’ Saturnino Portela, a 50 metros do primeiro.    

      Tínhamos a circulação diária pelo bairro, de tipos folclóricos, entre trabalhadores ambulantes ou assíduos frequentadores de botecos: como o português bigodudo, ‘seu Chico Peixeiro’ que passava sempre gritando, apregoando suas mercadorias. Levava-as em dois cestos, revestidos internamente por recipientes de ‘folha de flandres’ com tampas, onde iam os peixes e o gelo.  Sob encomenda, vinha camarão. O aparato era pendurado nas pontas de uma vara, a qual ia apoiada num dos ombros.  Possivelmente, o último remanescente de uma categoria profissional, tão presente no imaginário coletivo da época, que até fazia parte da coleção figurinhas das ‘Balas Zequinha’.

      Outra figura, cujo estilo também foi eternizado nas ‘Zequinhas’, era o ‘tintureiro’;  igualmente, com seu brado próprio; usava um uniforme parecido com o dos ferroviários da Rede, todo de azul marinho, quepe em tecido da mesma cor, com um distintivo empresa, na parte frontal. Parecia até um marinheiro !  Seu sucessor nessa atividade, não mais ambulante, foi um ‘japonês’, chamado Nabor Oki, que instalou-se no início da rua Bom Jesus – e era o único nipônico até então conhecido. E como 'tintureiro', como mandava o folclore da época. Só uns 10-12 anos depois, é que apareceu no bairro, outro ‘japonês’, o Tanigushi, como namorado da Marina Klamas.

      Uma das coisas bastante características do bairro, era o seu time de futebol, o Huracán São Vicente, da 3ª. Divisão de Amadores ('Série Amarela'). O prédio de sua sede social ainda existe: hoje, estranhamente, é uma loja de colchões, na rua Augusto Stresser, junta à linha férrea ! Aliás, praticamente, todos os bairros da Cidade tinham times de futebol, na 3ª., 2ª. ou 1ª. Divisão. Muitas praças públicas de hoje, já foram campos de futebol, dentre as quais, a praça 29 de Março – campo do Poty; a Affonso Botelho, do ‘5 de Maio’; a Bento Munhoz da Rocha Neto, ao lado do Paraná Clube, do ‘Guaíra’ entre outras.

      Duas a três vezes por mês, tínhamos o que se chamava na época, ‘Festival’: barraquinha de bebidas, serviço de alto-falantes, durante toda a tarde de domingo. O ‘prato principal’, para os aficionados do esporte bretão, nem sempre em maioria, assistiriam a duas partidas: a primeira, entre os integrantes dos’segundos-quadros’ (suplentes) e a segunda partida, entre os times principais.

      Nos jogos ‘oficiais’, os gandulas eram marmanjos, que se apropriavam da tarefa, na base da força bruta; na falta deles, os próprios jogadores iam buscar as bolas.  Nos treinos, durante a semana, eu e minha irmã, acho que tínhamos cerca de 7-8 e ela 5-6 anos respectivamente, éramos titulares da posição, sem nenhuma concorrência.

      Entre a casa do ‘seu’ Alberto Klamas, pai da futura 1ª. Dama da Cidade e o campo, havia um terreno, cercado de arame farpado, chamado pelos vizinhos, de ‘potreiro’; onde entre outros animais, pastava a vaca, da família Klamas, que fornecia leite para muitos clientes da região, inclusive nossa família. Na época, em nossa casa, os Klamas eram tratados como os ‘Leite-de-Água’.

      Um das figuras, que depois se tornou famosa e para a qual nos ‘gandulávamos’, foi o goleiro Levis, que poucos anos depois de sua passagem pelo time do bairro, foi parar como titular, no Vasco da Gama do Rio de Janeiro. E jogou, durante muito tempo, com grandes figuras do futebol brasileiro, como Bellini, capitão da Seleção Brasileira de 1962, Campeã do Mundo no Chile e que terminou a sua carreira, no Atlético Paranaense. Levis, que ao que me consta, após encerrar sua carreira, retornou a Curitiba e retomou seu emprego, na Construtora Curitiba, velha empresa de construção civil da rua Itupava. Mundo que dá voltas ... E volta ao mesmo lugar !



Escrito por W. Pósnik às 09h16
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HISTORINHAS DE INFÂNCIA, NA 'VELHA' CURITIBA: DA NOSSA MÃE (1920-30) E DA NOSSA PRÓPRIA (1950) ! (1)

      Contava a nossa saudosa mãe, que ao tempo do seu ensino primário, final dos anos ’20, Curitiba a leste, ‘terminava’ no rio Belém. Sua mãe, minha avó materna Amantina, morava na atual rua Amintas de Barros, entre Mariano Torres e Dr. Faivre (nas imediações onde existe hoje, um supermercado). Era longe – ‘fora’ cidade ! Até porque a área ainda não era urbanizada e quando chovia, virava um lamaçal, da cor preta.

      (1) Naqueles tempos, só duas crianças iam calçadas para a escola, o atual Colégio Estadual ‘Conselheiro Zacarias’: o futuro Presidente Jânio Quadros, morador da Itupava e a filha do Prefeito de Bocaiúva do Sul da época – que inclusive, era trazida diariamente, de carro. Os demais, iam descalços. E ela contava que tinha inveja dos colegas que vinham de regiões de barro vermelho, enquanto que o dela era preto. Dizia ela também, que para leste, só havia aberta, a rua Itupava, ou a Munhoz da Rocha, dos caminhos de entrada e saída da Cidade. A rua XV, abaixo da atual Ubaldino do Amaral, era uma ‘barroca’, com bastante erosão. Que as crianças a usavam como escorregador.

      (2) Quando caía uma chuva ‘média’, seu tio Artur (mais novo dos irmãos da minha avó), costumava fazer uma pequena represa, próximo de uma das margens do rio Belém, na altura da atual esquina de Mariano Torres com Amintas de Barros e pegava uns peixes ‘a mão’. Algumas vezes, em razão de um eventual estado etílico, ele ‘sossegava’ os peixes mais agitados, matando-os a dentadas ! Depois, ia curtir a sua ressaca, na casa da irmã: ‘Besofen, Manta, besofen !’, dizia ele, quase chorando.

      (3) Esse tio, embora descendente de alemães, participava das arruaças, durante as duas Guerras Mundiais, contra os germânicos que não obedeciam às simulações de ataques aéreos: soavam sirenes e todas as luzes da Cidade deviam ser apagadas. Sempre havia alguns que não atendiam a esse ensaio: nestes casos, grupos de pessoas apedrejavam as casas que não atendiam os avisos. Aos gritos, de ‘Apaga, não apaga ! Acende, não acende’, uma pequena multidão se deslocava, na direção dos considerados ‘alemães impertinentes’ e apedrejavam suas moradias, até que as luzes fossem apagadas.



Escrito por W. Pósnik às 13h40
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HISTORINHAS DE INFÂNCIA, NA 'VELHA' CURITIBA: DA NOSSA MÃE (1920-30), E DA NOSSA PRÓPRIA (1950) ! (2)

      (4) Minha avó era natural de Cerro Azul e leitora diária do jornal ‘Diário da Tarde’, do polêmico jornalista Roberto Barrozo. Tinha entre seus hábitos, ir aos cinemas, fazer compras no Centro, freqüentar cafés. ‘leiterias’ ou confeitarias. Mas, constantemente, chovia no ‘vale’ do Belém e a lama preta a ser atravessada nestas ocasiões, não era fácil. Mas, ela não se intimidava: punha seu melhor traje e saía de casa descalça, pelo barro. Ía até a praça Generoso Marques, onde havia uma torneira ‘pública’: lavava e enxugava bem seus pés, colocava os sapatos e seguia em frente, em busca do seu programa favorito.

      (5) Em frente à casa de minha avó, havia uma família numerosa. Mãe viúva e cujo filho mais velho, ajudava a tomar conta da molecada. Aliás, esta ‘figura’ de dublê de pai, décadas depois, notabilizou-se como juiz de futebol, da nossa divisão principal. Contemporâneo de figuras ‘do apito’ como Kalil Karam Filho, José Barbosa de Lima Neto, Tufy Isfer, Orlando Stival, entre outros. Um dos irmãos mais novos do futuro juiz de futebol, tinha o apelido de ‘Daló’; era o mais levado da irmandade; esperto, traquinas, sempre disposto a causar alguma confusão familiar. Era comum, os vizinhos ouvirem algaravias diárias, em torno do Daló. Não poucas vezes, quando a coisa se complicava, ouvia-se a voz firme do irmão, admoestando-o: ‘Daló, pare com isso !’ ‘Daló, seu nego sem vergonha, pare com isso !’ E sempre se ouvia a réplica, algum resmungo do próprio, na tentativa de justificar-se, ou de manter seu ponto de vista ! Ao final, não havendo jeito de nenhum acordo, o irmão mais velho dizia: ‘Daló, vá buscar o couro !’ Coisa que se repetia, várias vezes. ‘Daló, seu nego sem vergonha, vá buscar o couro !’ Com a impaciência do mais velho crescendo e sua voz cada vez mais alterada, o pirralho, acabava desistindo de argumentar. E com a ligeireza de uma lebre, Daló pegava o tal do couro, jogava perto do irmão e saia em disparada, para fora de casa. A vizinhança, alertada pela discussão, assistia à porfia. Ás vezes, o mais velho, alcançava o Daló e o couro, comia solto. Muitas outras vezes, o Daló levava a melhor, fugia exultante. Depois, ‘dava um tempo’ ia se aproximando aos poucos, para saber se o irmão ainda estava em casa ! Se ainda estava com raiva, ou já tinha esquecido tudo. Não poucas vezes, o Daló se deu mal. Achou que o irmão tinha saído e que a mãe estava sozinha. Mas ele estava escondido, sorrateiro, esperando com paciência, a volta do moleque. Aí já viu, a vizinhança de ouvido e olho aguçado, assistia o escândalo completo. 1X 0 para o ‘dublê’ de pai !

      (6) Uma das coisas mais exóticas que havia na casa de minha avó, apelidada de ‘Nona’ por seus vizinhos italianos do Hugo Lange, era o galinheiro. Galinheiro, enquanto espaço dos ‘folguedos’ galináceos, era amplo; ocupava cerca da metade do terreno: mais ou menos uns 14m X 15m. Para umas vinte ‘penosas’ e um galo, criados extensivamente. Tinham liberdade de sair, para o campo e voltar, quando melhor lhes aprouvesse. Volta e meia, uma era sacrificada e posta na caçarola. Se fosse muito velha, tinha que lhe administrar, uma dose de pinga, antes de torcer-lhe o pescoço. Eu muitas vezes, ajudei a pegá-las e eventualmente, sacrificá-las. Algumas eram atropeladas, por ‘charretes’ ou veículos a motor, muito raros, O curioso era o galinheiro, enquanto dormitório, uma enorme árvore, um cedro de algumas décadas de vida. Havia uma escada, de uns 8m, em cerca de 45º. Que as ditas cujas, subiam ao por do sol e passavam a noite empoleiradas, a uns 10-12m de altura. Algumas vezes, à noitinha, alguma caía do galho, com algum estardalhaço, mas sem nenhuma conseqüência. A não ser, que caísse para o lado dos vizinhos italianos, na sua horta. Pela manhã, a descida era tranquila, em pequenos vôos-saltos, degrau a degrau. Tudo então, voltava ao ‘normal’ !



Escrito por W. Pósnik às 09h44
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